cnnbrasil

Gestores não entenderam que mudança do clima é real, diz secretário de Lula

Chuva histórica revela desafios de resiliência em municípios brasileiros

A intensa chuva que atingiu a Zona da Mata mineira, especialmente em Juiz de Fora e Ubá, expõe as falhas na resiliência das cidades brasileiras, segundo o secretário nacional de Mudança do Clima, Aloísio Melo.

Em entrevista à CNN, Melo criticou a postura de alguns gestores públicos que, segundo ele, ainda não reconhecem a seriedade da questão climática.

“Existem governantes que não compreendem que a mudança do clima é uma realidade com impactos visíveis no presente. Ignorar isso é colocar pessoas em risco”, afirmou.

O governo federal anunciou que irá financiar moradia para aqueles que perderam suas casas devido às chuvas.

O número de mortos em Minas Gerais já chega a 70, com o estado enfrentando o período mais letal em duas décadas.

De acordo com o secretário, candidatos a cargos políticos costumam abordar a questão climática durante as campanhas, mas tendem a despriorizar o tema ao longo de seus mandatos.

“As ações preventivas em relação à mudança do clima devem ser uma prioridade em todos os níveis de governo. É essencial criar proteções para situações de risco já identificadas. Esse assunto precisa estar na agenda de trabalho como uma questão urgente e não pode ser deixado de lado”, criticou.

A CNN revelou que houve uma queda significativa nos investimentos em prevenção a desastres em Minas Gerais entre 2023 e 2025, com cortes superiores a 95% nas verbas destinadas ao combate e resposta aos danos das chuvas. O governo estadual contesta esses números, afirmando que houve uma reclassificação das verbas.

Na última sexta-feira (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o governador Romeu Zema, destacando que o governo federal disponibilizou R$ 3,5 bilhões ao estado por meio do Novo PAC, mas até o momento nenhum projeto foi apresentado.

“Isso demonstra o descaso histórico com a população pobre deste país”, afirmou Lula.

O Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024–2035), elaborado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, orienta as ações do Brasil diante da crise climática até 2035, com metas para transição a uma economia de emissões líquidas zero até 2050 e medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Um dos focos do plano é a adaptação, visando tornar as cidades mais resilientes e menos vulneráveis aos impactos climáticos, com destaque para as chuvas extremas.

“Uma das metas é reduzir o número de famílias em áreas de risco. Outra diretriz é que toda nova infraestrutura financiada com recursos federais leve em conta esses riscos. Também é essencial priorizar ações preventivas, especialmente no planejamento urbano”, explicou Melo.

Apesar de as metas traçarem um caminho para a prevenção, a situação em Minas Gerais evidencia a falta de preparo das cidades brasileiras para enfrentar a mudança climática.

O secretário enfatiza que, embora os riscos sejam conhecidos, existem lacunas na educação da população sobre como agir em situações de risco e limitações nas regulamentações. Ele destaca que a legislação permite a liberação rápida de recursos após desastres, mas não facilita a prevenção.

“Recursos já foram liberados em prazos curtos, mas precisamos aprimorar nossas regulamentações para tornar a atuação mais rápida e preventiva. É crucial garantir que os recursos cheguem rapidamente, acompanhados do suporte técnico necessário para implementar projetos e obras de forma eficaz”, avaliou.

O plano reconhece a importância de fortalecer o federalismo climático, estabelecendo a meta de que todos os estados e pelo menos 35% dos municípios brasileiros tenham planos de adaptação até 2035.

O programa AdaptaCidades, coordenado pelo ministério, mapeou municípios com histórico de desastres, levando em consideração fatores demográficos e estratégias específicas para cada estado. Ao todo, 586 municípios aderiram à iniciativa, com previsão de conclusão dos planos locais até 2027.

“Resiliência é uma questão local, que requer mobilização do poder local e das prefeituras. A orientação técnica e a capacitação para que elaborem suas estratégias e propostas de investimento em resiliência já estão em andamento”, informou o secretário.

Além de direcionar investimentos internos, o Plano Clima também serve como uma vitrine para captação de recursos internacionais, demonstrando a estratégia do Brasil para alcançar suas metas climáticas.

“O plano envia uma mensagem clara aos investidores e a outros países, mostrando que não apenas temos metas, mas também um caminho para alcançá-las”, defendeu Melo.

Um dos possíveis eixos de financiamento no Fundo Clima é a resiliência urbana. Melo observa que historicamente os investimentos nessa área foram baixos.

“Incluímos essa perspectiva no Fundo Clima, criando condições específicas de financiamento para melhorar sistemas de drenagem, escoamento de água e áreas de absorção, com soluções baseadas na natureza. Esses investimentos, embora menos visíveis, são fundamentais”, concluiu.


← Voltar para as notícias