Fenômeno dos cartéis mexicanos não deve se repetir no Brasil
Márcio Sérgio Christino
24 de fevereiro de 2026, 15h17
A morte de El Mencho, uma das figuras mais temidas do crime organizado, gerou reações devastadoras em seu país, com mais de 70 mortos e caos em várias cidades. O que se questiona agora é se esse tipo de violência poderia acontecer no Brasil. A resposta é não.
Para compreender essa diferença, é essencial conhecer a trajetória do crime organizado no México. Os cartéis, assim como a máfia na Sicília, já existiam antes da consolidação do Estado mexicano, com suas raízes no final do século 19.
Naquela época, a Califórnia se expandia rapidamente e a construção de ferrovias atraía milhares de imigrantes chineses, que trouxeram a planta da papoula e começaram a extrair ópio. Sem repressão, o consumo cresceu, resultando em uma epidemia de vício. Com a repressão, muitos chineses migraram para o México, onde o cenário político instável favoreceu o cultivo da papoula.
Os imigrantes chineses rapidamente dominaram o norte do México, tornando-se os primeiros barões da droga. Contudo, a revolução de Emiliano Zapata trouxe mudanças drásticas, e muitos chineses foram exterminados ou expulsos.
Os barões mexicanos, em um contexto onde o Estado ainda se formava, conseguiram influenciar o governo. A falta de uma força policial unificada e de um Exército nacional permitiu que os cartéis consolidassem seu poder.
No Brasil, o cenário é distinto. As facções criminosas surgiram em um Estado já consolidado, com um sistema judicial e forças policiais estruturadas. Assim, é impossível que essas facções alcancem o mesmo nível de influência ou poder que os cartéis mexicanos.
Enquanto os cartéis enfrentam o Exército em pé de igualdade, no Brasil isso é impensável. Os ataques de 2006 no Brasil, por exemplo, não se comparam à violência que se vê no México, onde o conflito é institucionalizado.
Em resumo, a trajetória e o poder dos cartéis mexicanos não têm paralelos diretos com as facções brasileiras. Há uma exceção, que é o Rio de Janeiro, mas essa particularidade merece uma análise separada.
Márcio Sérgio Christino é procurador de Justiça Criminal e autor de obras como Laços de Sangue: A História Secreta do PCC e Por Dentro do Crime: Corrupção, Tráfico, PCC.
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