Estados Unidos

EUA e Irã: os dilemas da política externa de Donald Trump

Os dilemas da política externa de Trump diante da tensão com o Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou mais um ultimato ao Irã na quinta-feira, 19 de fevereiro.

A declaração aconteceu durante a primeira reunião do Conselho de Paz, uma coalizão criada por Trump para estabilizar o Oriente Médio, região que pode, em breve, ser palco de um novo conflito armado.

A ironia da convocação de paz à margem da ameaça de ações militares evidencia os conflitos que permeiam a política externa de Trump em seu segundo mandato.

Essa contradição é especialmente visível no impasse entre Washington e Teerã.

A tensão entre os dois países tem crescido rapidamente, podendo resultar na maior campanha aérea dos Estados Unidos nos últimos anos.

Trump expressou sua preferência por uma solução diplomática, buscando um acordo que encerre o programa de armas nucleares do Irã.

Uma autoridade da Casa Branca afirmou, em 18 de fevereiro, que seria "muito inteligente" da parte do Irã aceitar esse acordo.

Contudo, apesar das declarações favoráveis à diplomacia, a retórica de Trump contra a República Islâmica se intensificou nas últimas semanas.

Ele ordenou o que analistas consideram o maior deslocamento militar americano no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque, em 2023.

Esse fato ilustra a disposição de Trump em utilizar a força militar com mais frequência do que muitos de seus apoiadores esperavam, sem a aprovação prévia do Congresso.

A ameaça de um ataque ao Irã não deve ser descartada como uma mera estratégia de negociação. Na última vez que Trump ameaçou um adversário, os Estados Unidos atacaram a Venezuela.

Aquela operação tinha um objetivo militar limitado, conforme declarado pelo governo americano, e resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro no início de janeiro.

No caso do Irã, a lógica para outra campanha militar é menos clara.

Trump deseja que Teerã não desenvolva armas nucleares, uma prioridade compartilhada pelos aliados dos Estados Unidos.

O Irã, enfraquecido por sanções econômicas e protestos contra o regime do aiatolá Ali Khamenei, sinalizou abertura para negociação sobre o enriquecimento de urânio.

As conversações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã enfrentam um impasse.

O governo americano quer que Teerã limite também seu programa de mísseis balísticos e o apoio a grupos aliados na região.

As negociações podem estar estagnadas, mas Trump não explicou por que um novo ataque ao Irã seria necessário neste momento, menos de um ano após o bombardeio de junho passado.

Ele afirma que o ataque de 2025 "obliterou" as instalações nucleares do regime, mas não detalha por que um novo ataque seria necessário ou quais novos alvos poderiam ser.

Diferentemente da Venezuela, os objetivos mais amplos de Trump em relação ao Irã permanecem obscuros.

O governo americano busca forçar uma mudança de regime no Irã? Estaria preparado para uma reação militar iraniana contra bases americanas na região?

Um conflito prolongado poderia impactar outros objetivos estratégicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, como a reconstrução da Faixa de Gaza, liderada pelo Conselho de Paz.

Trump pouco esclareceu sobre os possíveis cenários após uma ação militar, e o papel de Israel em um possível ataque continua incerto.

Israel participou do ataque do ano passado e sua colaboração é esperada novamente, caso Trump decida por uma nova ação militar.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se reuniu com Trump na Casa Branca na semana passada para discutir a situação.

O discurso oficial do Estado da União do segundo mandato de Trump está agendado para a próxima semana, aumentando a pressão sobre ele para explicar como um ataque ao Irã se alinha com sua agenda política interna.

Trump busca a reeleição em 2024 prometendo retirar os Estados Unidos de conflitos externos, uma postura bem recebida por sua base e por muitos republicanos que se opõem à intervenção em países como a Ucrânia.

Desde que assumiu, Trump executou diversos ataques militares, incluindo ações contra a Síria, Irã e Venezuela, além de intervenções em navios no Caribe.

Uma ampla campanha aérea no Irã poderia custar-lhe apoio antes das eleições de meio de mandato, em novembro, especialmente em um momento em que as pesquisas mostram a frustração dos eleitores com suas políticas de imigração e economia.

Além disso, um grande ataque ao Irã representaria uma contradição à busca de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz. Ele alega merecer a premiação por ter encerrado oito guerras desde o início de seu segundo mandato, uma afirmação contestada.

Não há precedentes de um presidente americano que defenda ativamente sua candidatura ao Nobel da Paz enquanto utiliza o poder militar do país no exterior.

Essas incertezas deixaram o mundo em dúvida sobre as verdadeiras motivações de Trump ao conduzir os Estados Unidos para mais perto de uma guerra com o Irã.

Contudo, essa pode ser exatamente a intenção do presidente. Desde sua volta à Casa Branca, Trump parece ter abraçado seu papel de negociador-chefe global.

Ele presidiu várias cerimônias de assinatura de acordos e cúpulas internacionais, como a reunião do Conselho de Paz em 19 de fevereiro.

Sua política de tarifas de importação também forçou outros países a buscar acordos comerciais mais favoráveis, colocando Trump no centro de importantes negociações globais.

Em janeiro, Trump chamou a atenção internacional com o ataque à Venezuela e ao reivindicar que os Estados Unidos assumissem o controle da Groenlândia, outro episódio em que as intenções de Trump são difíceis de decifrar.

Em relação ao Irã, o presidente afirmou que o mundo terá que aguardar para ver suas próximas ações.

"Precisamos chegar a um acordo substancial", disse ele. "Caso contrário, coisas ruins irão acontecer."


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