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Economia global enfrenta perspectiva de outro choque profundo

Economia global enfrenta riscos de novo choque profundo

Por Peter S. Goodman

The New York Times

04/03/2026 - 05h00
Atualizado 18 horas atrás

No cenário mais otimista, a recente guerra no Oriente Médio se resolve rapidamente, com a região mantendo sua produção de petróleo e gás e a navegação no Estreito de Ormuz sendo retomada, evitando assim um colapso no abastecimento mundial de energia. Com isso, o medo da inflação poderia diminuir.

Entretanto, especialistas alertam que não há razão para alívio prematuro. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, assim como as represálias iranianas, geraram riscos significativos para a economia global.

Os custos globais da energia aumentaram drasticamente devido à crise no Irã. Os preços do petróleo subiram mais de 15% desde a última sexta-feira, e o contrato de referência do Brent registrou um aumento de 6% nesta terça-feira, superando os US$82 por barril.

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As preocupações mais sérias residem na possibilidade de o governo iraniano, em uma posição vulnerável, realizar retaliações mais severas, aceitando bombardeios ainda mais intensos. Presumivelmente, os iranianos tentariam prejudicar a produção de petróleo e gás de potências como Catar e Arábia Saudita.

Qualquer prolongamento do conflito ou ameaça às fontes de petróleo e gás tende a elevar os preços, alimentando a inflação. Isso pode levar bancos centrais a aumentar as taxas de juros, encarecendo hipotecas e financiamentos, sufocando o consumo e o investimento — um caminho clássico para a recessão.

“Estamos em um período muito delicado”, afirma Kenneth S. Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e professor da Universidade Harvard.

Rogoff, que também é um estudioso de história, expressou ceticismo sobre a ideia de que o conflito será breve, citando o assassinato do arquiduque Ferdinando como um evento que desencadeou uma guerra global.

Preocupações centrais giram em torno do destino da energia do Oriente Médio, responsável por 30% do petróleo mundial e 17% do gás natural. Qualquer interrupção nesse fluxo provavelmente afetará as nações importadoras, especialmente as grandes economias do Leste Asiático e da Europa.

As comparações com a década de 1970 surgem sempre que o acesso ao petróleo do Oriente Médio se torna questionável. Naquela época, a Opep cortou a oferta para aumentar os preços, levando os americanos a enfrentar filas nos postos e custos recordes.

Atualmente, a atenção se volta para o Estreito de Ormuz, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e por onde passa cerca de 20% da oferta mundial de petróleo.

A pressão sobre essa rota foi intensa em 1979, quando a revolução no Irã derrubou o xá apoiado pelos Estados Unidos. No entanto, os paralelos históricos se interrompem aqui. O cartel Opep+ já prometeu aumentar a produção para compensar eventuais perdas causadas pela guerra. A produção americana também se mantém forte, superando a demanda.

Os choques de petróleo na década de 1970 levaram muitos países a buscar maior autossuficiência energética. O reconhecimento dos riscos geopolíticos e das mudanças climáticas também impulsionou a transição para fontes renováveis, com China e Europa liderando o investimento em energia eólica e solar.

Entretanto, a crise atual evidencia a dependência contínua de combustíveis fósseis. Se o Estreito de Ormuz for interrompido por mais de algumas semanas e se mísseis iranianos danificarem refinarias, ganhos imediatos em energia limpa podem ser anulados.

Além disso, a desativação de refinarias pode limitar a produção de produtos petroquímicos, aumentando os custos de alimentos e agravando a desnutrição na África Subsaariana e no Sul da Ásia.

“Petróleo e gás ainda são extremamente importantes”, afirma Kjersti Haugland, economista-chefe do DNB Carnegie. Apesar dos avanços na energia verde, ela ressalta que “ainda há um longo caminho a percorrer”.

Os preços do petróleo subiram mais de 10% na segunda-feira, refletindo preocupações com o acesso ao abastecimento global de energia. Contudo, recuaram mais tarde, indicando que as preocupações estavam restritas à capacidade de exportação do Oriente Médio.

China, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, Taiwan, Itália e Espanha — todos grandes exportadores — já enfrentam os impactos da guerra comercial iniciada pelo ex-presidente Donald Trump, lidando com tarifas e aumento de custos de matérias-primas. Agora, também veem a possibilidade de um aumento nos preços dos combustíveis.

“As partes mais vulneráveis do mundo são a Europa e o Leste Asiático, que dependem de energia importada”, observa Adnan Mazarei, do Peterson Institute for International Economics.

Um indicativo do que está em jogo foi a suspensão da produção de gás natural liquefeito pelo Catar, devido aos riscos no Estreito de Ormuz, o que fez o preço do gás na Europa disparar 50%.

A China é particularmente vulnerável, dependendo do Irã para mais de 13% de suas importações de petróleo. O governo chinês já enfrenta uma queda nos preços dos imóveis, afetando as economias de milhões.

A Índia também enfrenta desafios específicos. O governo indiano havia prometido a Trump reduzir as compras de petróleo da Rússia, buscando compensar com importações do Golfo Pérsico. Agora, a guerra ameaça esses suprimentos.

A economia indiana depende fortemente das remessas enviadas por trabalhadores no exterior, especialmente no Golfo Pérsico, que representam 38% de todas as remessas.

Os Estados Unidos parecem mais protegidos, sendo o maior produtor de petróleo bruto e exportador de gás natural. No entanto, os consumidores americanos provavelmente sentirão os efeitos de preços mais altos na gasolina, impactando a economia como um todo.

Essa realidade pode levar muitos a acreditar que Trump buscará encerrar o conflito antes que os preços elevados da energia afetem ainda mais os custos dos bens de consumo, especialmente com as eleições legislativas se aproximando.

Entretanto, Rogoff alerta que, a longo prazo, os impactos do conflito poderão aumentar a inflação, exigindo que os Estados Unidos ampliem sua dívida nacional para reabastecer suas forças armadas.

“Vamos acabar gastando muito mais com as Forças Armadas, e isso terá implicações para os juros e a inflação”, conclui Rogoff. “Isso já está no horizonte.”


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