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“É doença e não falta de vontade”: médico diz o que perder 47 kg o ensinou

Reflexões sobre a Obesidade e o Tratamento Eficaz

Aos 47 anos, vivenciei um longo caminho de compreensão sobre a obesidade. Durante muito tempo, acreditei que minha luta era apenas uma questão de disciplina. Mesmo sendo médico, dominando a teoria e as diretrizes, cheguei a pesar 126 quilos.

O peso na balança não era o principal problema. O que realmente me afetou foi quando a obesidade começou a impactar minha vida de forma mais profunda. O cansaço constante, a inflamação silenciosa, a compulsão alimentar e a perda de desempenho tornaram-se parte da minha realidade. Minha energia e clareza mental diminuíram, e o apetite parecia incontrolável.

Experimentei na pele os efeitos da resistência insulínica e da dificuldade em controlar a alimentação. Aprendi que a obesidade vai além da vaidade; trata-se de uma condição fisiológica.

A Realidade da Obesidade no Brasil

O Ministério da Saúde aponta um aumento de 118% na obesidade no Brasil. Essa realidade leva muitos a se condenarem por estarem acima do peso, o que pode dificultar ainda mais o processo de emagrecimento. Estudos mostram que a prática de atividade física é essencial para controlar o apetite.

A grande mudança ocorreu por volta dos 33 anos. Não foi um evento dramático, mas um momento de lucidez. Percebi que, se continuasse nesse caminho, perderia não apenas a saúde, mas também a autoridade para falar sobre o que pregava.

Entendi que precisava tratar a obesidade como uma doença, não como uma falha de disciplina.

O Conflito da Vivência

Como médico, viver a obesidade gerou um conflito interno. A culpa e a vergonha foram constantes, assim como a sensação de incoerência. Saber o que fazer não impediu que a desregulação hormonal superasse minha racionalidade. Essa experiência me ensinou que o conhecimento não é suficiente. A empatia se constrói através da vivência.

No começo, cometi o erro de ser radical. Treinava excessivamente e comia muito pouco, acreditando que essa intensidade sustentaria o emagrecimento. O corpo reagiu: metabolismo desacelerou, a fome aumentou e o cortisol disparou. Compreendi, então, que a obesidade não é vencida com ações temporárias, mas sim com constância estratégica.

O processo levou de três a quatro anos de tratamento estruturado até que alcancei meu peso ideal de 79 quilos. Não houve milagre, mas sim uma série de ajustes e acompanhamento constante.

A Obesidade como Doença Crônica

Ainda há resistência em reconhecer a obesidade como uma doença. Frequentemente, é associada à falta de vontade ou fraqueza moral. No entanto, trata-se de uma condição crônica, como diabetes ou hipertensão, que requer controle contínuo.

Quando um paciente tenta emagrecer apenas com força de vontade, o corpo reage de maneira defensiva. A leptina diminui, a grelina aumenta e o gasto energético basal cai. O organismo vê a perda de peso como uma ameaça e tenta recuperar o que foi perdido. O reganho de peso não é fraqueza; é uma adaptação fisiológica.

Os medicamentos, como os análogos de GLP-1, não são milagrosos, mas sim ferramentas que ajudam a controlar a fome, aumentam a saciedade e melhoram o controle glicêmico. Para muitos, a remissão sustentada é improvável sem a intervenção medicamentosa adequada. Assim como tratamos a pressão alta de forma contínua, a obesidade também pode exigir um tratamento constante.

A medicação sozinha não resolve. O manejo sustentável da obesidade depende de quatro pilares fundamentais:

- Estratégia nutricional estruturada

- Exercício físico inteligente, preservando a massa magra

- Terapêutica farmacológica quando necessário

A obesidade não é um projeto de verão; é um manejo crônico.

Reflexões Finais

Hoje, falo não apenas como médico, mas como alguém que vive o tratamento diariamente há mais de uma década. Não "curei" minha obesidade; aprendi a controlá-la. Isso me proporciona energia, saúde e coerência entre o que ensino e o que pratico.

A obesidade não é uma falha moral, mas sim uma doença crônica. E existe tratamento.


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