Tiririca

De “pior que tá não fica” ao PSD: Tiririca segue Kassab e se reposiciona para eleições 2026

De “pior que tá não fica” ao PSD: Tiririca se reposiciona para as eleições de 2026

Quando Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca (PSD), foi eleito deputado federal em 2010 com 1.353.820 votos em São Paulo pelo então PR, o Brasil vivia um período peculiar na democracia. O voto de protesto que o alçou ao cargo estava imerso em um contexto em que a política institucional era vista com desconfiança, e muitos eleitores se relacionavam com as urnas mais pelo sarcasmo do que pela convicção. O palhaço não apenas conquistou uma vaga, mas se tornou um fenômeno eleitoral, puxando votos para outros parlamentares e simbolizando um protesto silencioso disfarçado de piada.

Quinze anos depois, o mesmo personagem encerrou a eleição de 2022 com apenas 71.754 votos. Com a popularidade em baixa em São Paulo, Tiririca deixou o PL e se prepara para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Ceará pelo PSD.

Esse movimento, longe de ser improvisado, tem a assinatura de um dos operadores mais experientes do sistema político, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Ele aposta no reposicionamento regional de figuras conhecidas para aumentar a capilaridade e a força do partido.

A relação entre o voto de protesto e a politização do brasileiro

A queda na votação de Tiririca acompanha o crescente despertar político do país. Em 2010, o voto de deboche encontrou um terreno fértil em um Brasil pouco envolvido com o debate público.

Em 2014, após as manifestações durante o governo Dilma Rousseff (PT), o eleitorado começou a discutir política no cotidiano, e Tiririca ainda manteve uma votação expressiva, com 1.016.796 votos.

Em 2018, com a ascensão de Jair Bolsonaro e a polarização política, sua votação caiu para 453.855. Em 2022, a sobrevivência eleitoral foi possível apenas devido a outros candidatos ligados a Bolsonaro que puxaram votos para a sigla.

A saída do PL reflete mudanças internas nas legendas. O partido, consolidado como o principal abrigo do bolsonarismo, passou a exigir alinhamento explícito à agenda ideológica. Em contraste, o PSD de Kassab é flexível, adaptável e orientado por estratégias de sobrevivência.

A migração para o PSD e o retorno ao Ceará, onde nasceu, são apresentados por Tiririca como uma escolha afetiva e de oportunidade. “Eu amo São Paulo, mas queria muito representar meu estado querido do Ceará. No PL, não tinha essa chance. O PSD, com Gilberto Kassab e meu querido amigo Domingos Neto, me ofereceu essa oportunidade e eu não pensei duas vezes”, declarou em entrevista à Gazeta do Povo.

A pré-candidatura de Tiririca e o cenário no Ceará

Por trás do discurso afetivo, há um cálculo partidário claro. O PSD atua com pragmatismo no Ceará, onde o cenário eleitoral é indefinido. O governador Elmano de Freitas (PT) deve tentar a reeleição com apoio do governo federal e do ministro da Educação, Camilo Santana (PT), contando com vantagens da máquina federal e estadual.

A oposição busca uma composição viável entre diferentes forças políticas, e é nesse ambiente fragmentado que figuras conhecidas como Tiririca ajudam a dar visibilidade às chapas e ampliam o alcance eleitoral dos partidos. Entre os nomes que podem fazer frente ao candidato petista está o ex-candidato à presidência e ex-governador cearense Ciro Gomes (PSDB).

Para o cientista político Antonio Lavareda, o caso de Tiririca ilustra como o sistema eleitoral brasileiro favoreceu candidaturas midiáticas em um período de baixa politização, mas agora passa a filtrá-las. “O eleitor brasileiro vota em um sistema proporcional com lista aberta, desorganizado, em grandes distritos. Em São Paulo, o eleitor teve que escolher entre mais de 1.500 candidatos a deputado federal. Isso gera paralisia na escolha”, afirma.

O sistema permanece, mas o eleitor mudou. Segundo Lavareda, a politização acelerada a partir de 2013, intensificada pela ascensão de Bolsonaro, reduziu o espaço para candidaturas sem identidade ideológica clara. “O Bolsonaro, goste-se ou não, teve o papel de ideologizar o eleitor. As pessoas passaram a se reconhecer como de direita ou de esquerda”, destaca.

Essa análise é compartilhada pelo cientista político Ariel Calmon, da BMJ Consultores Associados. Para ele, Tiririca não conseguiu converter seu capital simbólico inicial em uma identidade política duradoura. “O voto de protesto funcionou em um momento específico. Quando o eleitor se identificou com campos políticos, Tiririca não conseguiu se reposicionar”, conclui.

O Ceará e o PSD surgem, assim, como uma tentativa de reinício para Tiririca, que aposta na memória afetiva de um eleitor menos exposto à sua atuação parlamentar recente e mais ligado ao personagem midiático de outros tempos.

Mais do que a história de um deputado, a trajetória do humorista ajuda a explicar uma transformação estrutural na democracia brasileira. O personagem que surgiu como piada eleitoral prosperou em um Brasil distante da política. Seu reposicionamento ocorre agora em um país polarizado e mais atento ao jogo político. A curva de votos de Tiririca, do auge ao declínio, reflete o amadurecimento de um eleitorado que deixou o riso fácil para trás.


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