Das camas de hospital à polêmica do luxo: como o pilates se afastou de suas raízes
Yasmine Reed buscava uma atividade de baixo impacto e alta intensidade após uma lesão no ligamento cruzado anterior decorrente de sua prática no basquete. Durante sua atuação como enfermeira de UTI itinerante na pandemia, ela conheceu o pilates, que se transformou em uma terapia após longos turnos de 12 horas.
Contudo, ao participar das aulas, Reed notou a falta de diversidade entre clientes e instrutores. Para preencher essa lacuna, ela fundou o Method Room em março de 2024, um estúdio de pilates com reformer, voltado para tornar a prática mais acessível e acolhedora em Washington D.C..
Recentemente, a discussão sobre a quem o pilates realmente se destina ganhou força, especialmente após a instrutora Raven Ross, ex-participante do reality show da Netflix "Casamento às Cegas", comparar a prática a uma experiência de luxo, similar à compra de uma bolsa Bottega Veneta.
Essa comparação deixou muitos desconcertados, uma vez que o pilates, que envolve exercícios de alongamento e fortalecimento, se tornou um símbolo de elitismo, muitas vezes associado a corpos tonificados e aulas caras em academias boutique. Em um episódio recente, uma instrutora de barre de D.C. provocou polêmica ao conectar a popularidade crescente do pilates com a ênfase social em "corpos menores" e o aumento do conservadorismo.
Ross, que possui um canal no YouTube com mais de 400 mil inscritos, tentou abordar a questão da falta de diversidade no pilates em um vídeo no TikTok, onde afirmou que a prática, assim como a marca de luxo, não é acessível. Após a repercussão, ela se desculpou, reconhecendo que suas palavras foram mal interpretadas e reafirmando seu compromisso em tornar o pilates mais acessível.
A discussão sobre o pilates como um bem de luxo se intensificou, especialmente com o anúncio de uma reformer de pilates à venda por US$ 4.999 (cerca de R$ 26.724). Muitas pessoas, especialmente de comunidades marginalizadas, ainda se sentem excluídas desse universo.
A verdadeira origem do pilates remonta a um campo de internamento da Primeira Guerra Mundial, onde Joseph Pilates adaptou camas de hospital para criar exercícios de resistência. Após a guerra, ele levou seu método para Nova York, onde treinou a dançarina negra Kathleen Stanford Grant, uma das primeiras instrutoras certificadas.
A instrutora Christina Black, de Honolulu, comentou que os comentários de Ross soaram elitistas, mas reconheceu que o custo do treinamento e do equipamento é um fator limitante. Ela enfatizou a importância de mostrar os benefícios do pilates para uma ampla gama de corpos.
O conceito de "princesa do pilates" começou a circular nas redes sociais, associando a prática a um estilo de vida glamouroso. Essa estética, segundo alguns instrutores, se distorceu do verdadeiro propósito do pilates, que é acessível a todos.
Stephanie Green, instrutora baseada em Detroit, expressou o desejo de ver mais diversidade nas aulas de pilates, especialmente entre mulheres mais velhas e negras. A inclusão de instrutores de diferentes origens é essencial para atrair um público mais amplo.
Reed, da Method Room, destacou que os altos custos dos programas de certificação são uma barreira significativa para novos instrutores. Ela defende que o acesso ao treinamento não deveria ser um impeditivo para quem deseja ensinar.
Essas conversas refletem a necessidade de repensar o pilates e garantir que ele permaneça uma prática inclusiva, acessível e verdadeira às suas raízes.
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