Da bateia na mão às organizações criminosas e a participação de multinacionais estrangeiras
A questão não se resume apenas a garimpeiros com bateias em busca de ouro nas terras indígenas. A invasão da Terra Indígena Yanomami é um fenômeno complexo, envolvendo organizações criminosas que se aproveitaram da vulnerabilidade de famílias em busca de oportunidades financeiras. Essa realidade se entrelaça com o narcogarimpo, uma prática que tem se expandido na região.
Recentemente, um inquérito do Ministério Público Federal (MPF) começou a investigar empresas dos Estados Unidos e da Suíça por extração ilegal de minério na Terra Yanomami. Entre as empresas citadas estão a Gerald Metals e a MLS Berkowitz, acusadas de exportar 732,8 toneladas de cassiterita extraída de forma ilegal entre 2021 e 2022, em um período marcado pela ação do crime organizado na fronteira com a Venezuela.
A investigação visa estabelecer cooperação jurídica internacional para reparar os danos causados ao povo Yanomami. O MPF também está apurando a responsabilidade da mineradora Betser, liderada por Christian Costa dos Santos, preso em 2023 durante a Operação Disco de Ouro. Esta operação investiga também o cantor Alexandre Pires e seu empresário por envolvimento em garimpo ilegal na região.
A Operação Disco de Ouro desmantelou um esquema que movimentou R$ 250 milhões em estados como Roraima, São Paulo, Pará, Minas Gerais e Santa Catarina. O esquema visava a "lavagem" de cassiterita ilegal, que era disfarçada como proveniente de um garimpo regular no Rio Tapajós, em Itaituba (PA).
As investigações revelaram que o minério tinha origem na própria Terra Indígena Yanomami, e as transações financeiras envolviam uma cadeia produtiva complexa, incluindo pilotos de aeronaves, proprietários de postos de combustíveis e lojas de equipamentos de mineração, além de “laranjas” para encobrir movimentações fraudulentas.
Essas informações iluminam o desafio enfrentado pelas autoridades no combate ao garimpo ilegal em terras indígenas, onde esquemas milionários são sustentados não apenas por empresários, mas também por políticos que financiam e são financiados por essa atividade ilícita.
É importante notar que as eleições deste ano podem ser influenciadas pelo financiamento de empresários do garimpo que buscam representatividade nos legislativos locais e no Congresso Nacional, além de almejarem imunidade parlamentar. As movimentações para isso já estão em curso.
“As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal”
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