Crise do Master amplia rombo no Fundo Garantidor de Créditos
A crise provocada pela liquidação extrajudicial de instituições financeiras associadas ao Banco Master representa um dos maiores desafios recentes para o sistema financeiro brasileiro e para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Com a decisão mais recente do Banco Central de liquidar o Banco Pleno, vinculado a um ex-sócio do grupo, o impacto estimado no FGC ultrapassa R$ 51,8 bilhões — aproximadamente 32% do patrimônio do fundo, que atualmente gira em torno de R$ 122 bilhões. Esse valor é equivalente a quase metade do lucro combinado dos maiores bancos do país em 2025. Contudo, a cifra oficial pode não refletir a realidade dos danos.
O montante divulgado considera apenas o ressarcimento a depositantes até o limite legal de R$ 250 mil por CPF, não incluindo integralmente os empréstimos de assistência de liquidez concedidos pelo FGC às instituições que faliram, valores que não são detalhados publicamente devido a regras regulatórias.
Na prática, o FGC enfrenta um duplo impacto: arca com o pagamento das garantias aos clientes e, simultaneamente, corre o risco de não recuperar os recursos emprestados aos bancos em dificuldades. “Os R$ 51,8 bilhões estimados dizem respeito apenas às garantias a serem pagas nos casos do Master, Will Bank e Banco Pleno. Esse número não inclui os empréstimos emergenciais concedidos às entidades do conglomerado”, explica o especialista em direito bancário José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados. “Quando a instituição quebra sem quitar esses empréstimos, a assistência se torna inadimplência.”
O episódio reacende a discussão sobre o desenho do sistema. Criado como uma entidade privada sustentada pelos próprios bancos, o FGC tem como função principal proteger depositantes e manter a estabilidade financeira. Para Lopes da Costa, a atuação como agente de assistência de liquidez amplia seu papel original. “Quando socorre uma instituição que depois não honra o empréstimo, o fundo socializa perdas privadas, exercendo, na prática, uma função de garantia pública implícita.”
Enquanto os desembolsos avançam, o impacto já é significativo. Segundo o balanço mais recente, divulgado na semana passada, o FGC já pagou R$ 37,2 bilhões aos credores do Master, beneficiando cerca de 653 mil investidores.
Para recompor o caixa e preservar sua capacidade de resposta, aproximadamente 250 instituições associadas terão que aumentar suas contribuições. Um plano emergencial aprovado em fevereiro de 2026 prevê a antecipação de até sete anos de aportes futuros e a elevação temporária das alíquotas mensais. Bancos de grande porte, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, já iniciaram a antecipação de contribuições equivalentes a cinco ou sete anos.
Estimativas do setor indicam que para o Itaú Unibanco, o impacto pode chegar a cerca de R$ 7 bilhões. “Esse custo tende a ser repassado ao mercado, refletindo no preço do crédito”, afirma Lopes da Costa. O aumento estrutural das contribuições pode reduzir margens, alterar estratégias de expansão e encarecer a captação, especialmente para bancos médios que dependem da emissão de CDBs em plataformas digitais.
Há ainda preocupações com a sustentabilidade futura do fundo. Ao concentrar receitas previstas para os próximos anos, o FGC recompõe liquidez no curto prazo, mas limita sua margem de manobra diante de novos eventos relevantes antes de 2031. “Se houver outra liquidação de grande porte nesse intervalo, o fundo estará mais vulnerável”, diz o especialista.
Na visão do advogado Vanderlei Garcia Jr., doutor em Direito Civil pela USP e sócio do VGJr Advogados Associados, a crise deve ser analisada sob três dimensões: regulatória, sistêmica e reputacional. No aspecto regulatório, ele observa fragilidades na governança corporativa e nos modelos de negócios de algumas instituições de médio porte. “A sucessão de liquidações sugere problemas estruturais, especialmente em bancos com estratégias de captação mais agressivas”, afirma. Para ele, o episódio deve levar à revisão dos critérios de supervisão prudencial e monitoramento contínuo.
O impacto da crise também afeta o Banco de Brasília (BRB), que realizou negócios considerados problemáticos com o Banco Master e é alvo de investigações. Diferentemente de instituições menores ligadas ao Master, como o Banco Pleno, o BRB é um banco público tradicional, controlado pelo governo do Distrito Federal. Segundo o Banco Central, o rombo estimado no BRB gira em torno de R$ 5 bilhões, valor que pode aumentar devido à demora na definição de um plano de recapitalização.
Como acionista controlador, o governo distrital terá que aportar recursos para recompor o capital da instituição, o que impõe pressão política ao governador Ibaneis Rocha (MDB), que precisa apresentar uma solução sem adiar decisões por razões eleitorais. O Governo do Distrito Federal (GDF) enviou, na sexta-feira, à Câmara Legislativa uma proposta para usar imóveis do governo distrital como garantia para capitalizar o BRB. Em entrevista ao Correio, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, expressou otimismo com o plano, acreditando na demanda pelos imóveis localizados em Brasília.
Sob a ótica sistêmica, Garcia Jr. afirma que não há indícios de colapso generalizado, mas reconhece um aumento na percepção de risco. “A repetição de intervenções eleva o prêmio de risco para bancos médios, pressiona instrumentos de proteção como o FGC e pode encarecer o funding dessas instituições.” Ele considera plausível a elevação das contribuições para recompor o patrimônio do fundo. “Isso afeta custos, margens e pode repercutir no crédito ao consumidor”, complementa.
No campo reputacional, o impacto é igualmente relevante. “O sistema financeiro é sustentado pela confiança. Mesmo sem risco sistêmico amplo, a percepção de instabilidade pode influenciar o comportamento de investidores e correntistas”, enfatiza. Apesar do cenário desafiador, Garcia Jr. ressalta que o sistema bancário brasileiro mantém um elevado grau de regulação e capitalização. “Até o momento, não há indícios de contágio generalizado. O que se observa é um teste importante de resiliência institucional, que pode resultar em ajustes regulatórios e aprimoramento dos mecanismos de controle.”
A percepção é de que a crise pode provocar mudanças significativas, como a separação mais clara entre a garantia de depósitos e a assistência emergencial aos bancos, o reforço da fiscalização e a adequação das contribuições conforme o risco de cada instituição. O desafio será manter esse movimento de melhoria mesmo após a diminuição da tensão, para que essa situação resulte em avan
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