Credcesta: como o negócio de "dívida infinita" do Master sobreviveu a duas liquidações de bancos
O negócio de "dívida infinita" do Credcesta após liquidações bancárias
A instituição oferecia uma modalidade de crédito com descontos em folha sem prazo definido. Após a liquidação do Banco Master, a operação foi transferida para o Banco Pleno, que também enfrentou intervenção do Banco Central.
Em 18 de fevereiro de 2026, a liquidação do Banco Pleno pegou de surpresa servidores do estado da Bahia. Esse banco havia assumido, no ano anterior, a operação do Credcesta, um cartão de crédito que desconta diretamente do salário de funcionários públicos e aposentados. Anteriormente, o produto era administrado pelo Banco Master, que teve suas atividades suspensas pelo Banco Central devido a suspeitas de fraudes.
Com a liquidação do Pleno, a responsabilidade agora recai sobre o liquidante da instituição, José Eduardo Victória. No Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), há mais de 10,2 mil processos relacionados ao Credcesta, com queixas que vão desde juros abusivos até casos em que servidores alegam não terem contratado empréstimos, mas perceberam descontos em seus salários. O advogado Jorge Falcão, do escritório Falcão Rios, destaca que muitos casos envolvem fraudes, onde não havia depósito nas contas correntes dos servidores.
Falcão, que desde 2020 processa o Credcesta e o Banco Master, já tentou anular todos os contratos em uma ação civil pública, mas o pedido foi indeferido.
O Credcesta foi criado na Bahia em 2018, com apoio de Lima, um ex-sócio do Master. Trata-se de um “Cartão de Benefício Consignado”, que permite que servidores públicos contratem crédito com desconto em folha, algo que Lima obteve autorização do governo para explorar.
Augusto Lima, que foi sócio do Master e agora dirige o Pleno, não respondeu aos questionamentos da reportagem. O liquidante do Pleno, José Eduardo Victória, também não se manifestou. A defesa de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, afirmou que a instituição sempre atuou em conformidade com as normas do INSS para a concessão de crédito consignado.
Apesar das mudanças na administração, a situação do Credcesta continua a gerar controvérsias, e milhares de servidores ainda buscam na justiça a devolução dos valores descontados de seus contracheques.
Os clientes que enfrentam problemas com o Credcesta são, em sua maioria, servidores públicos idosos, muitos com problemas de saúde e pouco conhecimento financeiro. Eles contrataram o empréstimo por telefone, sem compreender plenamente os termos, e acabaram superendividados.
Uma servidora pública, por exemplo, teve 35% de seus rendimentos comprometidos por descontos do Credcesta e por associações que se apresentavam como representantes de servidores. Estas associações ofereciam empréstimos vinculados à operação do Banco Master, mas não atenderam às tentativas de contato.
A servidora, que preferiu não ser identificada, enfrentou descontos do Credcesta por pelo menos seis anos. O bloqueio foi realizado no final de 2025, após ações judiciais de Falcão. Ela revelou que não tinha conhecimento sobre os detalhes do contrato e que toda a abordagem foi feita por telefone.
Falcão ressalta que a falta de informação era recorrente nas interações com os servidores. Em um áudio compartilhado, uma atendente do Master oferece um seguro a uma servidora idosa, mas os detalhes do empréstimo são confusos e difíceis de entender.
Em novembro de 2025, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central, sob a justificativa de "grave crise de liquidez" e "violações às normas" do sistema financeiro. Vorcaro se tornou alvo de investigações por operações fraudulentas, incluindo a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos falsos ao Banco de Brasília (BRB), que incluíam contratos do Credcesta.
Os servidores que já processavam o Master e o Credcesta pensavam que, após vencer suas ações, teriam que se registrar como credores na liquidação. No entanto, a situação tornou-se complicada após a liquidação do Pleno.
Jeoas Santos, coordenador jurídico da Associação dos Policiais e Bombeiros Militares e de Seus Familiares do Estado da Bahia (ASPRA), explica que quem contratou o Credcesta até setembro de 2025 ainda tinha descontos vinculados ao Banco Master, sem respostas do liquidante. A partir de setembro, a responsabilidade passou ao Banco Pleno.
Com a recente liquidação do Pleno, a situação se complicou ainda mais. Santos menciona que os processos ficam suspensos, criando uma fila para pagamento de credores.
Desde 2018, Santos move processos contra o Banco Master e o Credcesta, contabilizando cerca de 2 mil ações nesse período, agora paralisadas, aguardando uma decisão judicial.
No final de janeiro, ele entrou com uma ação popular para tentar suspender todos os contratos do Credcesta na Bahia, buscando que essas operações sejam reconhecidas como irregulares, já que o Credcesta não é um empréstimo consignado comum.
O advogado da ASPRA aponta que o Credcesta simulava um empréstimo consignado tradicional, mas, na prática, os servidores contratavam uma modalidade diferente, conhecida como RCC (Reserva de Cartão Consignado de Benefício). Dados obtidos pelo E-Investidor indicam que, até o ano passado, o Master tinha R$ 1,9 bilhão em empréstimos nessa categoria.
Nesse tipo de operação, o valor não é proveniente de um empréstimo convencional, mas do limite de um cartão de crédito consignado. Isso leva a um desconto mensal automático no contracheque, que corresponde apenas ao pagamento mínimo da fatura do cartão.
Com isso, a dívida não é amortizada. Se o saldo não for quitado integralmente, o servidor continua pagando indefinidamente, enquanto o valor devido cresce devido aos juros.
Para resolver a situação, restam duas opções: quitar a dívida total de uma vez ou converter a operação em um empréstimo consignado tradicional.
Santos explica que o banco apresentava a ideia de que um servidor poderia pegar R$ 1 mil de empréstimo a ser pago em 96 parcelas, mas na verdade, ele estava apenas pagando o mínimo da fatura do cartão, sem diminuir a dívida.
Elber Laranja, especialista em produtos de crédito, ressalta que as taxas de juros do RCC são mais altas. Enquanto o teto para um consignado tradicional é de 1,85% ao mês, o limite do RCC chega a 2,46% ao mês.
Mesmo após as liquidações dos bancos, os servidores públicos continuam esperando uma solução para os descontos contínuos em seus contracheques.
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