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Coruja azul e “baratas” de Dimon: crise volta a assombrar mercado de crédito dos EUA

24/02/2026 15h23
Atualizado 26 segundos atrás

O mercado de crédito nos Estados Unidos enfrenta novamente uma situação alarmante.

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, já havia alertado no ano passado que “quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, referindo-se a indícios de problemas pontuais que poderiam sinalizar algo mais grave. Recentemente, ele reiterou esse alerta, traçando comparações com os eventos que antecederam a crise de 2008.

O que desencadeou essa preocupação foi a situação da Blue Owl Capital, que alterou suas regras de resgate em um de seus fundos de crédito privado, gerando inquietação no mercado.

A empresa vendeu US$ 1,4 bilhão em empréstimos de três fundos, destinando parte desse valor para devolver 30% do montante aos investidores do fundo OBDC II. Em adição, a gestora limitou os resgates trimestrais a 5% do patrimônio, optando por devolver os valores conforme os ativos forem vendidos.

Em um comunicado, a Blue Owl declarou que, “em vez de retomar uma oferta de recompra de 5% por trimestre, estamos devolvendo seis vezes mais capital e retornando-o a todos os acionistas nos próximos 45 dias”.

A resposta do mercado foi negativa. As ações da Blue Owl registraram uma queda de cerca de 60% em 13 meses, o que também afetou outras gestoras de crédito privado.

A questão central é que muitos fundos garantem um certo nível de liquidez, mas investem em ativos que não são fáceis de liquidar rapidamente. Quando um número significativo de investidores busca resgatar ao mesmo tempo, os gestores são obrigados a vender ativos ou restringir os resgates, como ocorreu.

A Morningstar descreveu a situação como uma “lição dura” para investidores em fundos semilíquidos, onde o investidor perde o controle sobre o momento de saída, dependendo do ritmo de venda dos ativos.

Outro fator que pressiona o setor é o avanço da inteligência artificial. Uma pesquisa do Bank of America revelou que o receio de uma “bolha de IA” se tornou a principal preocupação entre investidores de crédito, com 23% dos entrevistados considerando esse risco como o mais significativo, comparado a 9% em dezembro.

A situação se agrava à medida que a IA ameaça transformar negócios em diversos setores. Recentemente, o foco recaiu sobre empresas de software como serviço (SaaS). O problema é que muitos fundos de crédito possuem uma exposição significativa a essas empresas, que representam cerca de 20% do portfólio agregado das estruturas de BDC, como a Blue Owl. Se a IA alterar rapidamente o cenário competitivo, algumas dessas empresas poderão enfrentar dificuldades.

Gestores do setor têm encontrado semelhanças com o ano que precedeu a crise do subprime de 2008. Orlando Gemes, da Fourier Asset Management, observou que “os sinais de alerta que estamos vendo no crédito privado hoje são surpreendentemente familiares aos de 2007”. Mohamed El-Erian levantou a hipótese de que o momento atual poderia ser um “canário na mina de carvão”, um aviso inicial de um problema maior.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, também expressou preocupação, destacando que é vital proteger os investidores individuais.

Até o momento, os números não indicam um aumento significativo nos calotes. O índice Cliffwater Direct Lending registrou um retorno de 9,33% em 2025, com perdas realizadas de 0,70%, abaixo da média histórica. Os empréstimos problemáticos permanecem em níveis controlados.

Isso sugere que o temor está mais relacionado ao que pode ocorrer no futuro do que a uma crise já estabelecida. Em decorrência disso, alguns analistas não veem um cenário alarmante.

Em entrevista ao InfoMoney, um gestor de crédito de uma grande instituição global avaliou que, em termos gerais, o mercado americano continua em “boa condição”. Segundo ele, o receio de recessão tem circulado há anos, levando empresas a adotar posturas mais conservadoras, como reduzir investimentos, alongar prazos de dívida e preservar caixa para manter liquidez.

Essa gestora acredita que a maioria das empresas possui um "colchão" financeiro suficiente para lidar com uma desaceleração moderada. Embora isso não elimine riscos, indica uma capacidade de absorver choques. A ressalva se refere aos riscos mais extremos.

Várias instituições de análise brasileiras já recomendavam cautela na alocação em renda fixa americana ao final do ano, orientações que continuam válidas após a situação da Blue Owl.

No entanto, para Bernardo Queima, CEO da Gama Investimentos, a tese de alocação em renda fixa nos EUA e outros mercados desenvolvidos continua pertinente, mesmo considerando o atual fluxo favorável aos emergentes.

“A renda fixa global, especialmente em moeda forte, proporciona exposição a ciclos econômicos e regimes monetários distintos, melhorando significativamente a eficiência da carteira por meio de menor correlação e melhores retornos ajustados ao risco”, afirma.

Para esta gestora, o foco deve ser nos fundamentos e no retorno esperado. “Ir contra a maré não é necessariamente ser contrarian. Pode ser disciplina”, conclui.

A JGP observa que o Brasil possui características que mitigam alguns dos riscos observados nos EUA. Em uma carta, a gestora ressalta que é incomum encontrar tranches de crédito subordinadas/alavancadas (semelhantes às ações de BDCs) até mesmo entre investidores institucionais. No Brasil, essas estruturas geralmente permanecem com os originadores dos empréstimos.

“Essas diferenças não significam que não devamos aprender com as experiências americanas”, alerta a JGP, enfatizando que expandir agressivamente veículos para o mercado de ações, desconsiderando uma estrutura de passivo mais prudente, “são ações que devemos evitar para não repetir os erros aqui”.


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