Consolidação multicustódia: como a IA pode driblar obstáculo histórico de assessores
A Transformação do Mercado de Advisory com a IA
25/02/2026 07h00
A inteligência artificial (IA) evoluiu de uma promessa para um importante agente de transformação no setor de advisory no Brasil. O aumento do uso dessa tecnologia revelou um problema persistente: muitos profissionais ainda não têm acesso completo ao patrimônio de seus clientes, o que compromete a qualidade das recomendações.
De acordo com Guilherme Assis, cofundador e CEO da Gorila, a falta de uma visão consolidada leva a decisões baseadas em fragmentos de informação. Ele compara essa situação a um médico que analisa apenas parte dos exames de um paciente.
A consolidação multicustódia, que historicamente foi um desafio, agora se torna essencial para a personalização avançada. Com a IA, os profissionais deixam de depender de múltiplas telas e planilhas, passando a acessar informações em linguagem natural. Isso reduz o tempo gasto na busca por dados e amplia a capacidade de realizar análises contextualizadas.
Normas como o Open Finance e a CVM 209 estão acelerando essa transição, facilitando o acesso a informações que antes estavam dispersas. “Estamos migrando da era do dado para a era do insight”, conclui Assis.
Desafios Culturais e Mudanças Regulatórias
Apesar dos avanços tecnológicos, a fragmentação no atendimento ainda é um desafio. Muitos advisors continuam a elaborar recomendações apenas com base nas carteiras que gerenciam, resultando em sobreposição de ativos e uma visão incompleta dos riscos. Especialistas apontam que o problema é em grande parte cultural, já que a indústria brasileira se desenvolveu em torno do produto em vez do cliente.
Assis destaca que a fragmentação é um “vício histórico” e que investidores não aceitam mais relatórios que não apresentem a história completa. O uso de PDFs, planilhas e informações compartilhadas por WhatsApp mantém o mercado preso a práticas manuais e de difícil escalabilidade.
Mudanças regulatórias, como a CVM 178 e CVM 179, estão promovendo a transição para modelos de maior transparência, aproximando o Brasil de práticas internacionais. Nos Estados Unidos, consultorias que operam semelhante aos RIAs lideram a adoção de IA.
O Papel da IA na Evolução do Advisory
O principal obstáculo para a evolução do advisory é a dificuldade em enxergar o cliente de forma holística. Sem uma consolidação efetiva, decisões sobre rebalanceamento, avaliação tributária e análise de riscos ficam comprometidas. Exposições invisíveis, como concentração setorial, se tornam comuns.
Assis afirma que ao consolidar e explicar informações, a conversa com o cliente se eleva a um novo nível. Ele ressalta que a IA não substitui o contato humano, mas o aprofunda, liberando os profissionais de tarefas operacionais.
Experiências de empresas como BlackRock e Morgan Stanley demonstram que a tecnologia pode enriquecer o relacionamento humano, permitindo interações mais estratégicas.
A Maturidade da IA e o Futuro do Advisor
A plena adoção da IA ainda enfrenta desafios estruturais, como dados despadronizados e a resistência em integrar novas rotinas. Assis menciona um estudo do MIT que indica que 95% dos projetos de IA falham não por problemas técnicos, mas pela falta de integração com processos existentes.
O papel do advisor está em transformação, tornando-se menos transacional e mais estratégico. Emergem, assim, os “super-advisors”, profissionais que, apoiados pela IA, conseguem atender mais clientes com maior profundidade.
“Nada substitui empatia e a habilidade de traduzir dados em decisões de vida”, afirma Assis. A IA amplifica essas competências, sem competir com elas.
Os investidores estão se tornando mais exigentes, buscando análises contextualizadas e explicações claras sobre suas carteiras. Após experimentarem interfaces interativas, poucos desejam voltar a relatórios tradicionais.
Entre os clientes da Gorila, já é possível notar resultados positivos: conversas mais estratégicas, maior engajamento e redução de erros de alocação. “Uma vez que o investidor passa a enxergar o todo, dificilmente volta atrás”, conclui Assis.
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