Conflito no Oriente Médio reacende volatilidade no mercado de trigo
Conflito no Oriente Médio e a Volatilidade do Mercado de Trigo
A intensificação do conflito no Oriente Médio trouxe de volta a volatilidade ao mercado internacional de trigo. De acordo com o analista Luiz Pacheco, da TF Consultoria Agroeconômica, o primeiro reflexo no mercado foi a expectativa de que grandes importadores da região antecipassem suas compras em resposta às tensões geopolíticas.
O trigo é uma base alimentar essencial para o Oriente Médio e o leste da África. No entanto, a corrida por compras adicionais foi limitada. A Arábia Saudita foi a única a aumentar uma aquisição inicial de 660 mil toneladas para 794 mil toneladas.
A cotação do trigo na bolsa de Chicago caiu 2% devido à realização de lucros e à alta do dólar. Em contraste, o açúcar avançou na Bolsa de Nova York, impulsionado pelo aumento do petróleo.
À medida que o conflito avança, a principal preocupação mudou do volume negociado para a logística de entrega. Um navio cargueiro foi recentemente atingido na região, o que intensificou as preocupações sobre a segurança do transporte marítimo e elevou os custos de frete das commodities.
Pacheco explica que os recentes movimentos de alta e queda nos preços são ajustes típicos do mercado diante de eventos externos. “É como um elástico. O mercado é puxado para cima ou para baixo e faz vários movimentos até encontrar um novo ponto de equilíbrio”, comenta.
Além das tensões geopolíticas, o mercado de commodities também é afetado pelo cenário financeiro global. Com perdas nas bolsas de valores, investidores têm liquidado posições em commodities para cobrir prejuízos em outros ativos, o que aumenta a volatilidade.
Outro fator que pressiona o mercado é a valorização do dólar. Élcio Bento, analista da consultoria Sagras & Mercado, observa que a cotação do trigo em moeda norte-americana torna o produto menos competitivo em alguns mercados, alterando fluxos comerciais.
Apesar da instabilidade, a oferta mundial de trigo é considerada relativamente confortável. A Rússia, um dos principais exportadores globais, indica uma safra robusta, o que ajuda a estabilizar os preços internacionais. A Ucrânia, embora enfrente desafios logísticos devido à guerra com a Rússia, continua a ser um fornecedor importante.
Com relação ao milho, os principais exportadores incluem Estados Unidos, Brasil, Argentina e Ucrânia. Pacheco alerta que, a curto prazo, a capacidade de outros países de absorver volumes adicionais de milho ou trigo é limitada, uma vez que contratos e fornecedores estão previamente definidos.
Para o Brasil, o impacto imediato no fornecimento é considerado moderado. O país importa anualmente entre 6 milhões e 6,5 milhões de toneladas de trigo, sendo que 4 a 5 milhões vêm da Argentina e cerca de 1 milhão de outros países. É necessário buscar volumes adicionais nos Estados Unidos, especialmente quando a qualidade do trigo argentino apresenta limitações.
Daniel Kummel, da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), informa que os moinhos operam com estoques equivalentes a três meses de moagem, o que oferece proteção no curto prazo. A indústria brasileira processa cerca de 13 milhões de toneladas de trigo por ano. “O mundo está bem abastecido de trigo. Estamos em entressafra no Brasil e dependemos principalmente do trigo argentino e do hemisfério norte. Neste momento, não há viés claro de baixa”, avalia.
Entretanto, um prolongamento do conflito pode elevar os custos logísticos e pressionar o mercado futuro, que tende a precificar riscos geopolíticos. A alta do petróleo também impacta diretamente os custos de frete e, indiretamente, os custos de produção.
No campo, há preocupações em relação aos fertilizantes, pois parte desses insumos provém do Oriente Médio e possíveis entraves logísticos podem elevar os preços, embora grande parte das compras para a atual safra já tenha sido realizada.
Para a próxima safra de trigo no Rio Grande do Sul, cujo plantio começa em abril, espera-se uma redução entre 10% e 15% na área cultivada, devido a preços abaixo do custo de produção. Em contrapartida, regiões como São Paulo e o Cerrado devem aumentar a área cultivada, mesmo que representem uma menor participação na produção nacional.
Pacheco ainda destaca a possibilidade de um aumento na área cultivada de milho, motivado pelo temor de guerra, embora considere essa decisão arriscada em um cenário de excedente global.
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