Como um simples tijolo na parede ajudou a salvar uma menina após anos de abuso
Sam Piranty, da BBC Eye Investigations
22 de fevereiro de 2026 - Atualizado em 23 de fevereiro de 2026
Aviso: Este artigo contém detalhes sobre abuso sexual.
O investigador especializado em crimes online Greg Squire enfrentava um beco sem saída em sua missão de resgatar uma menina vítima de abusos sexuais, conhecida por sua equipe como Lucy.
Imagens perturbadoras da garota estavam sendo compartilhadas na dark web, uma parte da internet acessível apenas por meio de softwares que garantem anonimato aos usuários.
Apesar da cautela do abusador em tentar apagar seus rastros, Squire percebeu que a maior pista para localizar a menina de 12 anos estava diante dele.
Squire faz parte do Departamento de Segurança Interna dos EUA, em uma unidade que se dedica a identificar crianças em material de abuso sexual.
Uma equipe da BBC, incluindo o repórter João Fellet, acompanhou durante cinco anos o trabalho de Squire e de outras unidades de investigação no Brasil, Portugal e Rússia. Os jornalistas registraram casos como o de uma menina de 7 anos sequestrada na Rússia, considerada morta, e a prisão de um brasileiro responsável por grandes fóruns de abuso infantil na dark web.
Essas histórias estão documentadas em Infiltrados na dark web, um trabalho conjunto da BBC News Brasil e da BBC Eye.
O acesso exclusivo da BBC revela que muitas vezes as soluções para esses casos não vêm de tecnologia avançada, mas de detalhes simples em imagens ou conversas online.
Squire recorda que o caso de Lucy, que ele investigou no início da carreira, o motivou em sua dedicação ao trabalho. Ele achou especialmente perturbador que Lucy tinha quase a mesma idade de sua filha. Novas fotos dela sendo agredida apareciam frequentemente.
A equipe conseguiu identificar, pelo tipo de interruptores e tomadas elétricas visíveis nas imagens, que Lucy estava na América do Norte. Essa era a única informação que tinham.
Tentaram então contato com o Facebook, na época a maior rede social, para pedir ajuda na busca por fotos de usuários que pudessem incluir Lucy. No entanto, a empresa afirmou que não tinha as ferramentas necessárias, mesmo possuindo tecnologia de reconhecimento facial.
Squire e sua equipe analisaram tudo o que podiam ver no quarto de Lucy: a colcha, suas roupas e bichos de pelúcia, buscando qualquer pista que pudesse levar a ela.
Finalmente, tiveram um avanço ao descobrir que um sofá, visível nas imagens, era vendido apenas em uma área específica dos Estados Unidos, reduzindo o número de possíveis compradores a cerca de 40 mil.
"Naquele ponto da investigação, ainda estávamos analisando 29 Estados aqui nos Estados Unidos. Isso tornava a tarefa muito difícil", explica Squire.
A equipe continuava em busca de mais pistas quando notaram uma parede de tijolos no quarto de Lucy. Squire começou a pesquisar sobre tijolos no Google e entrou em contato com a Associação da Indústria de Tijolos.
A mulher ao telefone ofereceu ajuda, compartilhando a foto com especialistas em tijolos pelo país. A resposta foi quase imediata.
Um dos especialistas, John Harp, que trabalhou com vendas de tijolos desde 1981, identificou que o tijolo era um "Flaming Alamo", fabricado entre os anos 1960 e 1980.
Squire ficou animado, mas Harp informou que os registros de vendas eram apenas anotações físicas. Contudo, ele mencionou um detalhe crucial: "Tijolos são pesados e não se movem muito longe."
Isso alterou o rumo da investigação. A equipe restringiu a lista de clientes do sofá a pessoas dentro de um raio de 160 km da fábrica de tijolos de Harp, reduzindo o número a 40 ou 50.
Ao investigar redes sociais, encontraram uma foto de Lucy com uma mulher adulta, possivelmente uma parente. Descobriram o endereço da mulher e mapearam todos os outros locais onde ela havia residido.
Para evitar alertar o suspeito, começaram a enviar fotos de casas a Harp, que avaliou se poderiam conter os tijolos Flaming Alamo.
Finalmente, encontraram um endereço que Harp acreditava ter uma parede de tijolos que poderia ser a de Lucy.
Confirmaram que Lucy havia morado na mesma casa que o namorado de sua mãe, um criminoso sexual condenado. Em poucas horas, agentes prenderam o homem, que havia estuprado Lucy por seis anos e recebeu mais de 70 anos de prisão.
Harp se emocionou ao saber que Lucy estava segura, especialmente por sua experiência como pai adotivo.
"Já acolhemos mais de 150 crianças diferentes em nossa casa. O que a equipe de Squire faz diariamente é algo que transcende o que já vi", afirmou.
Squire enfrentou dificuldades de saúde mental devido à pressão do trabalho, admitindo que o álcool se tornou um problema.
Após um colapso, um colega o incentivou a buscar ajuda. "É difícil quando aquilo que lhe dá energia e motivação é também o que o destrói lentamente", disse.
Recentemente, Squire conheceu Lucy, agora com pouco mais de 20 anos. Ela falou sobre como a estabilidade que conquistou a ajudou a lidar com o que aconteceu.
"Rezei para que tudo terminasse. Sem querer soar clichê, mas foi uma oração atendida", contou.
Squire expressou seu desejo de ter podido informar Lucy sobre sua chegada. A BBC questionou o Facebook sobre a não utilização de sua tecnologia de reconhecimento facial na busca por Lucy. A resposta foi que a empresa prioriza a privacidade dos usuários, mas busca apoiar as autoridades sempre que possível.
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