Como Comando Vermelho surgiu e se espalhou pelo Brasil
A Origem e a Expansão do Comando Vermelho no Brasil
Em uma terça-feira, 28 de outubro de 2025, o número de mortos na Operação Contenção, realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, aumentou de 24 para 64. O caos se espalhou pela cidade, com tiroteios e vias bloqueadas, especialmente na Tijuca e no centro. Lojas fecharam, metrôs ficaram lotados, e passageiros compartilhavam votos de sorte para voltarem para casa.
Essa operação, uma das mais violentas na história fluminense, tinha como objetivo cumprir cem mandados de prisão e conter a expansão do Comando Vermelho, a organização criminosa mais antiga do Estado. Até o momento, a polícia civil registrou 121 mortos, incluindo quatro policiais, além da apreensão de mais de 100 fuzis e a prisão de 81 pessoas. Aproximadamente 2,5 mil agentes foram mobilizados.
Movimentos de direitos humanos rotularam a operação como uma chacina, levantando dúvidas sobre sua eficácia na segurança pública. O Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas expressou estar "horrorizado" com os eventos nas favelas.
Nos últimos anos, a facção tem ampliado seu domínio. De acordo com o Mapa dos Grupos Armados, o Comando Vermelho foi a única organização criminosa a aumentar seu controle territorial no Estado, expandindo em 8,4% entre 2022 e 2023, recuperando a liderança perdida para as milícias, agora controlando 51,9% das áreas dominadas por grupos armados na Região Metropolitana.
A história do Comando Vermelho remonta aos anos 1970, quando presos políticos se misturaram a detentos comuns no Instituto Penal Cândido Mendes, localizado em Ilha Grande. Os detentos mais antigos, com pouca educação formal, aprenderam sobre seus direitos através da convivência com os presos políticos, que eram majoritariamente de classes médias e intermediavam negociações por melhores condições.
O grupo foi inicialmente conhecido como Falange da Segurança Nacional, posteriormente transformando-se na Falange Vermelha e, finalmente, sendo chamado de Comando Vermelho pela imprensa. O sociólogo Carolina Grillo destaca que o grupo surgiu no contexto das prisões e que os presos políticos, apesar de não terem organizado a facção, compartilhavam uma experiência comum de assaltos a banco, considerados crimes de segurança nacional.
Um dos fundadores foi William da Silva Lima, conhecido como Professor. Em seu livro, ele menciona que o grupo surgiu para organizar a vida carcerária e estabelecer regras de convivência. A Lei da Anistia, em 1979, libertou os presos políticos, mas os demais continuaram encarcerados, resultando na desintegração da luta por justiça social que antes existia.
Nos anos 1980, a facção começou a se reorganizar e iniciou uma série de fugas massivas. Com o dinheiro oriundo de assaltos a bancos, o Comando Vermelho investiu no tráfico de cocaína, aproveitando-se do surgimento da Colômbia como produtora desse narcótico e transformando o Brasil em um entreposto.
Proteger as mercadorias do tráfico se tornou crucial, uma vez que a posse de drogas não poderia ser reivindicada legalmente. A necessidade de armamento aumentou, levando a rivalidades e disputas territoriais entre facções, o que, por sua vez, beneficiou o mercado de armas e a própria polícia.
Durante os anos 1990, a violência no Rio de Janeiro alcançou picos alarmantes. Em 1994, a taxa de homicídios foi de 64,8 por 100 mil habitantes, em contraste com 24,3 atualmente. Para tentar desestabilizar o Comando Vermelho, o governo transferiu líderes para diferentes penitenciárias, mas isso acabou fortalecendo a facção, que se expandiu para além das fronteiras do Estado.
O jornalista Rafael Soares explica que o Comando Vermelho opera como uma rede de franquias, permitindo a expansão nacional da facção. Nos últimos seis anos, sua presença se fez sentir em 25 Estados, um aumento significativo em relação aos 10 anteriores.
A expansão do Comando Vermelho não se limita ao tráfico de drogas, que continua sendo central em suas atividades. Um relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que, em 2022, o crime organizado movimentou aproximadamente R$ 146,8 bilhões em mercados ilegais, incluindo ouro, combustíveis e tabaco.
A forma como os traficantes se armam também mudou. Anteriormente dependentes de vendas ilegais do Paraguai ou desvios das forças de segurança, hoje eles conseguem montar suas próprias armas, utilizando fábricas clandestinas que operam com tecnologia avançada, como impressoras 3D.
A Polícia Federal recentemente encontrou uma dessas fábricas em Rio das Pedras e apreendeu impressoras 3D. O Comando Vermelho também demonstrou sua capacidade militar ao utilizar drones em confrontos.
Além disso, as políticas de flexibilização do controle de armas durante o governo de Jair Bolsonaro resultaram em um aumento significativo de fábricas deste tipo. A falta de resultados das operações policiais, que têm se mostrado cada vez mais caras e violentas, se evidencia na contínua expansão do Comando Vermelho, que continua a dominar áreas onde a polícia atua com mais frequência.
A especialista Terine Husek conclui que não se vê uma relação direta entre as ações do governo e a desmobilização do tráfico ou das milícias, evidenciando o aumento das tensões e a falta de controle estatal sobre áreas dominadas há décadas.
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