Como a esquerda ajudou a criar o Comando Vermelho
A Contribuição da Esquerda na Criação do Comando Vermelho
No Brasil, as prisões atuam como verdadeiras escolas, e a maioria das facções criminosas surgiu atrás das grades, incluindo o Comando Vermelho.
Sua origem, na década de 1970, traz um elemento crucial: a convivência entre presos políticos e criminosos comuns.
O que começou de forma conflituosa entre militantes de esquerda e delinquentes no presídio da Ilha Grande (RJ) evoluiu para uma parceria. Essa aliança, inicialmente focada em estabelecer regras de convivência, resultou na transferência de um sofisticado conhecimento de guerrilha revolucionária para o universo do crime.
A relação de colaboração não é inédita. Em 1917, durante o “Ano Vermelho”, o Brasil experimentou um convívio entre anarquistas, sindicalistas e criminosos. O mesmo ocorreu sob o Estado Novo, quando a ditadura de Getúlio Vargas reuniu presos de diferentes origens. O líder comunista Gregório Bezerra narra em suas memórias a formação de uma célula revolucionária na Casa de Detenção do Recife, composta por militantes e cangaceiros.
O Comando Vermelho, que inicialmente se chamava Falange Vermelha, surgiu no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, por volta de 1974. Conhecido como “Caldeirão do Diabo”, o presídio foi descrito pelo escritor Graciliano Ramos, que lá esteve durante a era Vargas, como um local de superlotação e violência extrema. Em seu livro Memórias do Cárcere (1953), ele retrata um ambiente onde as paredes “choravam” e a sensação era de que estavam lá para morrer.
A formação do CV está atrelada a uma estratégia do regime militar para desestabilizar a luta armada. A Lei de Segurança Nacional de 1969 equiparou assaltantes comuns e militantes de esquerda que roubavam bancos para financiar suas ações. Todos foram enviados para a Galeria B, o “Fundão”, onde presos políticos de classe média interagiram com homens de origens humildes.
Entre estes últimos, destacavam-se figuras como William da Silva Lima (o “Professor”), Rogério Lengruber (“Marechal”) e José Carlos dos Reis Encina (“Escadinha”). Do outro lado, estavam nomes como o jornalista Fernando Gabeira, o padre Alípio Cristiano de Freitas e o sindicalista Colombo Vieira de Souza Junior, condenados por sequestro e roubo.
O assalto a bancos foi um fator crucial para a aproximação entre os dois grupos. Para os militantes de esquerda, esses roubos eram considerados “expropriação” e vistos como atos políticos para angariar fundos para a revolução, enquanto os criminosos comuns passaram a adotar essa retórica, enxergando o Estado como o verdadeiro inimigo.
Contudo, existe uma controvérsia sobre o grau de envolvimento dos guerrilheiros na criação do Comando Vermelho. O advogado José Carlos Tórtima, ex-preso político e Procurador-Geral da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, refuta a ideia de que o contato entre militantes e marginais teve um papel decisivo na formação da facção. Ele a considera um mito disseminado pela direita, enfatizando que enquanto os revolucionários promoviam o debate coletivo, o CV instaurou uma hierarquia militar.
Em seu livro Quatrocentos Contra Um: Uma História do Comando Vermelho (1991), William da Silva Lima minimiza a ideia de que o CV foi criado por militantes, embora reconheça ter lido obras recomendadas por presos políticos. Para ele, a força do “Fundão” estava na “afetividade” desenvolvida entre os detentos.
O jornalista Carlos Amorim, autor de Comando Vermelho: A História Secreta do Crime Organizado (1993), também contesta a intencionalidade dos militantes. Após mais de uma década de pesquisa, ele não encontrou indícios de que houvesse uma estratégia para envolver o crime na luta de classes. No entanto, ele reconhece que a experiência do confronto armado e as táticas de organização dos grupos militantes foram ensinamentos que contribuíram para a evolução do crime organizado.
A convivência forçada na Ilha Grande permitiu que os criminosos assimilassem uma sofisticada “tecnologia de organização”, que incluiu desde conceitos marxistas até táticas de guerra. Entre os principais aprendizados estavam a solidariedade entre os militantes, que substituiu o individualismo, e a formação de uma estrutura hierárquica que transformou o crime desorganizado em uma organização estruturada.
Textos como O Manifesto Comunista e O Capital circularam entre os detentos, convertendo criminosos em estudantes da retórica revolucionária. Aprenderam a justificar suas ações como respostas às condições insuportáveis, utilizando uma linguagem política para mascarar a violência.
O Comando Vermelho também adotou a estrutura celular das organizações de luta armada, garantindo que a facção continuasse operando, mesmo com lideranças presas. O lema "Paz, justiça e liberdade", que na prática significava paz entre bandidos e lealdade interna, emula a retórica revolucionária aplicada ao crime.
Os bandidos começaram a planejar assaltos de forma militar, com reconhecimento detalhado de alvos e rotas de fuga. Táticas como sequestros e comunicados à imprensa foram copiadas da guerrilha, mas usadas para intimidação e controle territorial.
A facção criou “tribunais” para julgar infrações internas, imitando os “tribunais populares” revolucionários, mas sua função era legitimar execuções sumárias. E as "radiolas", mensagens trocadas entre presídios e favelas, foram aprimoradas a partir do sistema dos presos políticos.
Esse intercâmbio entre militantes de esquerda e criminosos comuns moldou a trajetória do Comando Vermelho, que, apesar de suas origens, hoje opera sob uma lógica que busca o lucro, utilizando táticas que um dia foram empregadas na luta contra a opressão.
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