Com reforma trabalhista, Javier Milei dá continuidade ao projeto neoliberal de Macri e da ditadura militar
Reformas Trabalhistas e o Neoliberalismo na Argentina
A trajetória da Argentina desde a industrialização até a precarização revela paralelos com o Brasil e os limites da mobilização popular diante da ascensão da extrema direita global.
No dia 18 de fevereiro, trabalhadores da fábrica de pneus Fate enfrentaram o fechamento inesperado da empresa, que operava há 80 anos, resultando na perda de emprego para 920 pessoas. Algumas decidiram ocupar a fábrica. O estado, ao invés de promover um diálogo, anunciou a retirada dos trabalhadores do local. A Argentina sob Javier Milei não é um espaço para fábricas, trabalhadores ou negociações.
No dia seguinte, centrais sindicais convocaram uma greve de 24 horas contra a reforma trabalhista que estava prestes a ser aprovada em 26 de fevereiro. O pacote de reformas não apresenta nenhuma medida que beneficie os trabalhadores:
- Fim das horas extras em troca de um banco de horas, aumentando jornadas.
- Possibilidade de fracionamento de férias conforme a conveniência do empregador.
- Redução das indenizações por acidentes e doenças, podendo ser parceladas em até 12 vezes.
- Criação de um Fundo de Assistência Laboral (FAL) para que os trabalhadores indenizem suas próprias demissões.
- Restrições aos direitos de greve e à atuação sindical.
Nos últimos 50 anos, os argentinos deixaram de se espelhar na Europa para se comparar ao Peru, onde mais de 70% da população vive na informalidade e precariedade extrema.
A Argentina, historicamente reconhecida pela organização dos trabalhadores, vive um momento de descontentamento. Enquanto o Brasil discutia questões relacionadas aos ex-escravizados no final do século 19, os argentinos fundavam um partido socialista. Durante o período entre guerras, a taxa de industrialização da Argentina era quase o dobro da brasileira.
O impacto da Guerra das Malvinas em 1982 acelerou o fim da ditadura, mas o extermínio de militantes prejudicou a democracia. O ajuste neoliberal nos anos 90, com privatizações e dolarização da economia, foi um golpe radical. A ideia de "diminuir o estado para engrandecer a nação" prevaleceu, criando um contexto que Milei agora busca explorar.
A crise de 2001 trouxe um período de intensa mobilização, resultando na ascensão do peronismo repaginado pelos Kirchner. O progressismo argentino enfrentou desafios que o PT brasileiro não ousou, mas a falta de unidade impediu a construção de um papel aglutinador comparável ao de Lula.
Com o fim do boom das commodities, o progressismo perdeu força e a inflação cresceu. Mauricio Macri foi eleito em 2015 prometendo um estado eficiente, mas sua abordagem neoliberal agravou os problemas sociais. Em 2019, Cristina Kirchner voltou ao poder como vice-presidente, mas o cenário político se dividiu.
A vitória de Milei reflete a ascensão da extrema direita global, mas também introduz um novo capítulo. Ao contrário de Bolsonaro, que desviou o foco para questões comportamentais, Milei centraliza a economia. Seu governo é uma continuação das políticas neoliberais, e sua imagem de "salvador" é sustentada por uma retórica que promete sacrifícios.
Milei busca desmantelar o estado e limitar suas funções, favorecendo uma agenda que visa o desmonte das organizações sociais. Sua reforma trabalhista está prevista para votação em 26 de fevereiro, enfrentando resistência, mas também o apoio de uma elite que vislumbra a oportunidade de avançar em sua agenda.
Os movimentos sociais enfrentam desmobilização e fragmentação, refletem a dificuldade de resistência em um cenário de repressão. A vida cotidiana dos argentinos se torna uma luta diária por sobrevivência, caracterizada por endividamento e precarização.
Desde a crise de 2001, permanece a pergunta: quando a Argentina se mobilizará novamente? Em um panorama de dificuldade crescente, a implosão individual pode ser mais visível do que uma explosão coletiva.
A reflexão se alastra para o Brasil, onde a história também clama por mudanças e mobilização.
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