TCE-RJ

Bacellar foi procurado por Brazão, réu no Caso Marielle, na mesma semana da prisão do conselheiro do TCE

Detalhes sobre a prisão de Bacellar e encontros com membros do clã Brazão

Na noite de 23 de abril de 2022, um sábado, o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, agendou, por telefone, um almoço para o dia seguinte com um amigo de longa data. Entretanto, o encontro não ocorreu, pois Bacellar foi preso pela Polícia Federal nas primeiras horas do dia 24. A operação tinha como alvo o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Domingos Brazão, que, junto com seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, foi detido na Operação Murder Inc., investigada pela PF. Ambos são apontados como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

Bacellar foi preso em 3 de dezembro de 2022, acusado de obstruir a investigação, suspeito de vazar informações sobre a operação contra o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias. Relatórios da PF indicam que Bacellar teria alertado TH sobre a prisão iminente, orientando-o a eliminar evidências, como apagar dados de seu celular. Após sua prisão, Bacellar foi liberado, enquanto TH Jóias enfrenta diversas acusações, incluindo tráfico de drogas e corrupção, e é suspeito de intermediar negociações de armas com o Comando Vermelho (CV).

Encontro com Kaio Brazão

Na mesma semana em que Domingos e Chiquinho foram detidos, Bacellar se reuniu em uma padaria no Flamengo com Kaio Brazão, enteado de Domingos. A Polícia Federal tomou conhecimento do encontro ao monitorar a presença de Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, que foi preso em 9 de maio — duas semanas após os irmãos Brazão — por supostamente fornecer a arma utilizada no assassinato de Marielle. Peixe havia sido assessor de Domingos quando ele era deputado estadual e também será julgado pela acusação de ter fornecido a arma do crime.

Os investigadores decidiram ouvir Bacellar para entender o motivo do encontro com Domingos e, posteriormente, com Kaio, cuja reunião foi registrada por câmeras de segurança da padaria.

Bacellar confirmou que ele e Domingos combinaram o encontro na véspera da prisão e admitiu que Kaio o procurou em 26 de março, dois dias após a detenção de seu pai e tio, por meio de uma mensagem escrita.

No depoimento à PF, Bacellar detalhou a mensagem que recebeu: “Bom dia, presidente. Tudo bem? Seria possível encontrar com o senhor nessa semana? (SIC)”. Ele respondeu: “Claro, irmão. Bom dia”. Kaio disse que se encontraria com Bacellar no dia seguinte ou na quinta-feira (28/03/2025), com o encontro marcado para às 9h.

Conversas e relações políticas

Durante a conversa, Bacellar informou que a presença de Peixe o incomodou, pois ele acompanhava Kaio. O jovem teria pedido “conselhos políticos”, e Bacellar mencionou que Domingos havia sugerido, antes de sua prisão, que Kaio concorresse a vereador pelo MDB em 2024. Bacellar enfatizou que a conversa era estritamente política.

No entanto, Peixe solicitou a Bacellar um segurança para Kaio, ao que Bacellar respondeu que não poderia ajudar. Ele sugeriu que o pedido fosse direcionado a Pedro Brazão, tio de Kaio e também deputado estadual.

Quando questionado sobre sua relação com o clã Brazão, Bacellar declarou ser amigo de Domingos e de sua esposa Alice Kroff Brazão há pelo menos 20 anos, uma amizade que teve início durante sua trajetória política em Campos dos Goytacazes, quando seu pai, Marcos Vieira Bacellar, ainda era vereador na cidade.

Além de Kaio, Bacellar relatou ter sido procurado por Pedro Brazão, que o acompanhou de sua irmã. Ambos pediram ajuda para intervir no processo de expulsão de Chiquinho do União Brasil. Bacellar, em deferência a Pedro, contatou o presidente da executiva nacional do partido, Antonio de Rueda, que informou que a situação não tinha mais volta.

Influência de Domingos Brazão na política fluminense

A aproximação de Bacellar foi apenas uma das tentativas de Domingos Brazão para mobilizar sua influência e obter apoio junto a figuras proeminentes da política nacional. Entre os contactados estavam o ex-deputado federal Eduardo Cunha, o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho, e o prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Ambos foram arrolados como testemunhas de Domingos em uma ação penal que investiga o crime.

Cunha, em seu depoimento, afirmou que Domingos adquiriu postos de gasolina e bens em leilões, embora não soubesse de sua vida antes da prisão. Ele e Kaio estavam investindo em galpões na Baixada Fluminense.

Cunha também declarou que, em coligações políticas com Domingos, nunca presenciou qualquer ligação do conselheiro com milicianos. Ele foi além, defendendo a inocência de Domingos, alegando que sua condição política o tornava alvo de desgaste, especialmente por ser um político de esquerda.

Domingos foi um dos alvos da Operação Cadeia Velha, que revelou um esquema de propinas a parlamentares da Alerj. Apesar das prisões de figuras poderosas do Legislativo, Domingos conseguiu manter sua posição de conselheiro, um cargo vitalício e estratégico que lhe permitiu continuar influenciando as contas públicas do estado.

A influência de Domingos na política fluminense é antiga e se estende por diferentes esferas de poder. Ex-deputado estadual por cinco mandatos consecutivos, ele construiu uma sólida base eleitoral na Zona Sudoeste do Rio, uma região marcada por disputas territoriais. Sua chegada ao TCE-RJ, em 2015, foi resultado de um acordo político que consolidou sua posição como um dos atores mais influentes do estado.

Os irmãos sempre negaram qualquer envolvimento no caso Marielle. Enquanto Domingos afirma nunca ter conhecido a vereadora, Chiquinho destaca que tinha um relacionamento cordial com ela, ambos eram vereadores na data do crime. O ex-policial militar Robson Calixto também nega as acusações.


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