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As mentiras por trás do discurso de desenvolvimento de empresários e políticos

A análise de Sabrina Fernandes, que vai de Daniel Vorcaro à Cargill, revela como o Estado brasileiro opera como um balcão de negócios para empresários, promovendo a destruição de biomas sob a justificativa de crescimento econômico.

Em sua newsletter, No Fim do Túnel, a economista e socióloga conecta ecologia, poder econômico e política global. A herança colonial de desigualdade, racismo e violência no Brasil fortalece o discurso sobre desenvolvimento. Líderes políticos e empresários frequentemente justificam suas ações em nome desse ideal, alternando entre os termos desenvolvimento e progresso.

Nos discursos, aparecem promessas de geração de empregos e crescimento do PIB. Curiosamente, ao alcançarmos tais metas, a expectativa é que se dobrem as exigências: mais empregos, mais valor e, consequentemente, mais crescimento do PIB. O capitalismo e os economistas liberais utilizam métricas como índices da bolsa de valores e a entrada de investidores estrangeiros, enfatizando um crescimento contínuo, mesmo que isso ocorra às custas de tragédias sociais.

Essa lógica impõe uma relação forçada entre interesses capitalistas e o que se entende por desenvolvimento. O que é benéfico para o capital é frequentemente apresentado como benéfico para o povo. Na versão "verde" do desenvolvimento sustentável, até mesmo o bem-estar da natureza é considerado, desde que não interfira nos interesses do capital.

Em grandes projetos, audiências públicas e consultas raramente têm poder de veto ou promovem mudanças significativas. A jovem democracia da América Latina e do Caribe frequentemente ignora a participação popular, e as consultas são frequentemente mal conduzidas. Essa ausência de participação não é acidental; um modelo de desenvolvimento inquestionável facilita a manipulação da opinião pública.

O resultado é uma democracia fragilizada que prioriza interesses privados em detrimento do bem público, gerando desigualdade desde suas raízes. Os recursos arrecadados para políticas públicas voltadas à desigualdade acabam sendo condicionados a ceder ao capital privado, que é vendido como o principal gerador de empregos.

Em 2026, o Brasil evidencia falhas estruturais do capitalismo em proteger o povo e gerar empregos dignos. Exemplos como a expansão do agronegócio por meio de ferrovias e hidrovias revelam a negligência da classe política em facilitar o acúmulo de capital por grandes corporações.

Em nome do desenvolvimento, o Estado permite a destruição de ecossistemas para escoar mercadorias. Qualquer oposição é tratada como inimiga do progresso. O governador do Pará, Helder Barbalho, exemplifica essa postura ao se opor a audiências públicas que poderiam restringir suas ambições de crescimento.

O Ministério Público Federal questionou o licenciamento de obras, apontando a falta de diálogo com comunidades que não veem nas intervenções uma forma de desenvolvimento. O projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins visa aumentar o transporte de cargas, sem considerar a melhoria da integração entre comunidades. A quantidade de grãos movimentados nos rios da Amazônia levanta questões sobre o modelo produtivo incentivado.

A dragagem do rio Tapajós e a resistência dos povos indígenas evidenciam a luta de classes no território. Promessas de consulta prévia, conforme a Convenção 169 da OIT, são frequentemente ignoradas, e as decisões parecem já ter sido tomadas.

A Cargill, envolvida em projetos como a Ferrogrão, é acusada de facilitar a expansão do agronegócio, aumentando as emissões de gases de efeito estufa. Durante a COP30, a empresa recebeu um "selo de sustentabilidade", embora seu modelo contribua para desigualdade e violência no campo.

A falta de transparência da Cargill, que opera no Brasil sem fiscalização adequada, evidencia a relação entre corrupção e interesses privados. A percepção de que a corrupção deve ser vista apenas sob a ótica de políticos ignora a complexa rede de acordos que beneficia empresários.

Um exemplo é Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, que tem doado grandes quantias para campanhas políticas. O entrelaçamento entre interesses religiosos e empresariais revela um padrão de alianças que reforçam a desigualdade.

O projeto da Super Empreendimentos, que migrou de produção de sal para energia eólica, ilustra como grandes latifúndios são convertidos em áreas para energia renovável, permitindo que comunidades locais se tornem zonas de sacrifício.

A Esfera Brasil, um think tank que conecta empresários e políticos, exemplifica a busca por desenvolvimento que, em vez de beneficiar a população, reforça a concentração de riqueza. As métricas de desenvolvimento, focadas no aumento do PIB, permitem a especulação e a lavagem de dinheiro sob a justificativa de atender setores estratégicos.

Os defensores da primazia da propriedade privada e do papel privilegiado de empresários na política estão cada vez mais entrelaçados com o discurso de desenvolvimento nacional, criando oportunidades que favorecem poucos em detrimento de muitos.


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