Artemis II deve revelar lado oculto da Lua após 50 anos de pesquisas
Quando a missão Artemis II da Nasa iniciar sua jornada de 10 dias em torno da Lua, a tripulação terá a oportunidade de observar características da superfície lunar que nunca foram vistas a olho nu.
Durante o sobrevoo do lado oculto da Lua, sempre voltado para o lado oposto da Terra, os astronautas encontrarão áreas que não foram acessíveis às missões Apollo, devido às suas órbitas.
Com o lançamento agendado para abril, essa missão histórica representará a primeira vez em mais de 50 anos que humanos estarão tão próximos da Lua, dando início a uma nova era de exploração que pode responder a perguntas antigas sobre o satélite natural da Terra.
“Observamos a Lua ao longo da história e ela já foi visitada por astronautas e várias missões robóticas”, comentou Jeff Andrews-Hanna, professor do Laboratório Lunar e Planetário da Universidade do Arizona. “No entanto, ainda há muito que não sabemos sobre a Lua em um nível fundamental.”
As amostras coletadas nas missões Apollo, no final da década de 1960 e início de 1970, foram essenciais para nossa compreensão atual. Elas revelaram novas informações sobre a origem e a composição lunar, e análises recentes de amostras antes intocadas, assim como aquelas recuperadas por missões robóticas, trouxeram à tona a surpreendente descoberta de água aprisionada em rochas que se acreditava serem completamente secas.
As missões Apollo focaram em locais próximos ao equador lunar, no lado visível, onde o terreno era mais plano e os astronautas podiam se comunicar facilmente. Contudo, conforme os cientistas perceberam, essas amostras não representam completamente a diversidade da Lua, segundo Andrews-Hanna.
Explorar diferentes regiões lunares com o programa Artemis poderá oferecer um retrato mais abrangente da paisagem e de sua composição, além de elucidar a diferença entre os lados visível e oculto da Lua, a quantidade de água presente e a evolução do satélite ao longo do tempo.
Ademais, o estudo lunar pode iluminar aspectos obscuros da história inicial da Terra e ajudar a confirmar ou refutar a teoria predominante de que a Lua se formou após o impacto de um corpo celeste que colidiu com o nosso planeta há milhões de anos.
“Considero a Lua o oitavo continente da Terra”, disse Noah Petro, chefe do Laboratório de Geologia Planetária da Nasa. “Estudar a Lua é, na verdade, estudar uma extensão da Terra.” E ele acrescenta a promessa de surpresas.
“Teremos surpresas”, afirmou Petro, que também lidera a equipe científica da missão Artemis III, que pretende levar astronautas novamente à superfície lunar em 2028. “Se soubéssemos o que encontraríamos, não precisaríamos ir.”
As missões Apollo trouxeram à luz a história da origem da Lua. Sempre que uma espaçonave explora um planeta ou asteroide, uma das melhores coisas que ela pode fazer é trazer amostras de volta à Terra, ressaltou Barbara Cohen, cientista do projeto Artemis IV, outro pouso lunar planejado para o final desta década.
“Embora não estivéssemos presentes na formação das rochas, elas registram a história do que ocorria na época”, disse Cohen.
Após o retorno das amostras Apollo e suas análises, os livros didáticos foram atualizados com novas informações sobre a Lua.
“A importância do que não sabíamos sobre a Lua antes do programa Apollo é significativa”, destacou Paul Hayne, professor associado do departamento de ciências astrofísicas da Universidade do Colorado.
Antes da alunissagem, havia debates sobre se o satélite se originou em outra parte do sistema solar ou se formou junto com a Terra, ou até se desprendeu da Terra devido à sua rápida rotação, conforme explicou Carolyn Crow, professora assistente da mesma universidade.
Contudo, as amostras da Apollo levaram a uma nova teoria sobre a formação da Lua. Entre as amostras estava o anortosito, uma rocha ígnea raramente encontrada isoladamente na Terra, mas que era abundante no lado visível da Lua, indicando que as condições adequadas para sua formação existiram.
“A formação de anortosito requer uma lagoa de magma que cristalize lentamente, permitindo que ele flutue para a superfície”, explicou Crow.
A presença dessa rocha sugere que a Lua já foi completamente fundida. Além disso, isótopos encontrados nas amostras de rochas Apollo correspondiam a isótopos do manto terrestre, indicando que se formaram simultaneamente.
Essas descobertas ajudaram a consolidar a teoria de que um corpo do tamanho de Marte colidiu com a Terra, ejetando material que se tornaria a Lua.
“A Terra não seria o que é hoje sem o impacto que formou a Lua”, disse Andrews-Hanna. “A Lua estabiliza a Terra, o que foi crucial para o desenvolvimento da vida.”
As missões Apollo descobriram elementos da face visível da Lua que nunca tinham sido observados, mas dados de orbitadores mostraram que o lado oculto é completamente diferente, levantando questões intrigantes para os cientistas.
“A Lua é assimétrica em praticamente todos os aspectos, e não sabemos o porquê”, afirmou Andrews-Hanna. “Essa assimetria afetou a evolução da Lua e permanece como um dos maiores mistérios da ciência lunar.”
O lado visível possui uma crosta fina e topografia baixa, enquanto o lado oculto apresenta uma crosta espessa e elevações mais altas, com muito menos sinais de atividade vulcânica.
Embora a Lua pareça uma rocha inerte, instrumentos deixados pelos astronautas mostraram que ela é sismicamente ativa, com tremores que ocorrem à medida que o corpo celeste esfria.
“Queremos entender o que ocorre dentro da Lua”, disse Hayne.
A superfície lunar está repleta de crateras que registram os primeiros dias caóticos do sistema solar, quando planetas e asteroides colidiam. A Lua serve como uma cápsula do tempo perfeita, preservando esse registro que foi apagado na Terra por processos naturais.
“Compreender a história dos impactos na Lua e na Terra é fundamental para entender a origem da vida na Terra”, afirmou Andrews-Hanna. “Evidências sugerem que, após a diminuição dos impactos, a vida surgiu.”
As missões Apollo 14 e 15 exploraram o Mare Imbrium, uma das maiores crateras, coletando material ejetado. Acredita-se que Imbrium seja uma das crateras mais jovens da Lua, formada entre 3,85 e 3,92 bilhões de anos atrás.
“Para entender como era a Lua antes de Imbrium, devemos ir a regiões que não foram exploradas, como o polo sul ou o lado oculto”, disse Cohen.
Os cientistas agora buscam determinar a idade de outras crateras
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