bbci

Alertas do governo já colocavam Juiz de Fora no mapa de tragédia climática — por que não deu tempo de salvar dezenas de mortos?

Alertas Ignorados: Tragédia Climática em Juiz de Fora

Crédito, ANDRE COELHO/EPA/Shutterstock

Autor, Vitor Tavares, da BBC News Brasil em São Paulo

Documentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já indicavam os altos riscos de tragédias em Juiz de Fora (MG), incluindo áreas onde ocorreram deslizamentos na terça-feira, 24 de fevereiro. Apesar dos alertas, a calamidade não pôde ser evitada.

A cidade, localizada na Zona da Mata mineira, enfrentou um forte temporal a partir da noite de 23 de fevereiro, resultando em 42 mortes confirmadas e ao menos 17 desaparecidos até a noite de 25 de fevereiro. Em Ubá, a 100 quilômetros de Juiz de Fora, foram registradas mais seis mortes, de acordo com o governo de Minas Gerais.

Em 2023, o Cemaden realizou um estudo para mapear os municípios brasileiros mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações. O objetivo era direcionar ações prioritárias do governo federal através do Novo PAC, visando obras de mitigação e prevenção.

No total, 1.942 municípios foram identificados como áreas de risco, com aproximadamente 8,9 milhões de pessoas vivendo sob essa ameaça — representando 6% da população brasileira.

Juiz de Fora figura como a 9ª cidade com maior número de habitantes em regiões vulneráveis, somando cerca de 129 mil pessoas. As cidades que a precedem na lista são todas capitais ou fazem parte de regiões metropolitanas, destacando a gravidade da situação no interior do país.

Em comparação, Ubá tinha apenas 7,4 mil moradores em áreas de risco.

Características de Vulnerabilidade

De acordo com o Cemaden, os locais com maior suscetibilidade a desastres ambientais apresentam características de urbanização que favorecem esses eventos. Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, destaca que desastres ocorrem quando chuvas intensas atingem populações vulneráveis.

Entre os dias 23 e 24 de fevereiro, Juiz de Fora registrou 220 milímetros de chuva, bem acima da média mensal de 170 milímetros. A professora Cássia Ferreira, da UFJF, explica que o solo já estava saturado devido a precipitações anteriores, tornando a situação crítica.

A falta de um sistema robusto de monitoramento e prevenção contribui para a gravidade das tragédias. Ferreira aponta que, sem um processo efetivo de prevenção, os deslizamentos poderiam ser minimizados.

Alertas e Respostas

Juiz de Fora figura entre as cidades que receberam mais alertas do Cemaden em 2025, com foco em inundações e deslizamentos de terra. Os alertas são enviados para auxiliar a Defesa Civil nas decisões locais.

Um documento de 2017 já apontava riscos elevados de deslizamentos na área do Morro do Cristo, que acabou sendo afetado pelos deslizamentos recentes. A ocupação inadequada em áreas de risco é um fator crítico, segundo Seluchi.

Com a urbanização descontrolada, as moradias em encostas e próximas a rios aumentam a vulnerabilidade da população. A falta de infraestrutura e de um plano de prevenção eficaz, como alarmes e rotas de fuga, agrava a situação.

A Necessidade de Ação

Seluchi defende que a Defesa Civil deve ser melhor equipada para lidar com os alertas, propondo uma mudança jurídica que permita a remoção de moradores de áreas de risco. É essencial que as cidades implementem planos de redução de risco, incluindo a possibilidade de relocação de comunidades em áreas vulneráveis.

Apesar da tragédia em Juiz de Fora, projetos de prevenção estão em andamento. A Casa Civil do Governo Federal possui quatro projetos no PAC Seleções voltados para contenção de encostas na cidade. Recursos significativos foram alocados, mas ainda há pendências que impedem a liberação de verbas.

Conclusões e Desafios Futuros

O Ministério do Meio Ambiente tem enfatizado a necessidade de um plano de prevenção a desastres climáticos, especialmente após eventos devastadores recentes. A ministra Marina Silva destacou a importância de mudar a abordagem de gestão de desastres para uma gestão de riscos.

O Brasil enfrenta uma realidade desafiadora, com a expectativa de eventos climáticos extremos se tornando mais frequentes. A falta de continuidade nas políticas públicas e a necessidade de um regime jurídico específico para emergências climáticas são questões que precisam ser abordadas.

As projeções indicam que o Sudeste verá chuvas mais intensas nos próximos anos, tornando cidades como Juiz de Fora ainda mais vulneráveis. A tragédia recente é um lembrete alarmante da urgência em implementar estratégias eficazes de prevenção e resposta.


← Voltar para as notícias