Ações argentinas ficam para trás em rali de mercados da América Latina
Ações argentinas ficam para trás em rali de mercados da América Latina
26/02/2026 17h25
Atualizado 4 minutos atrás
As ações argentinas estão se distanciando de uma forte recuperação nos mercados acionários da América Latina neste ano, à medida que o entusiasmo inicial sobre as vitórias eleitorais do presidente Javier Milei se dissipa, em meio a resultados corporativos insatisfatórios.
Após um rali significativo das ações, impulsionado pelo desempenho de Milei nas eleições de meio de mandato em outubro, o índice de referência Merval estabilizou e, em seguida, registrou uma queda de 8% neste ano. Em contraste, o índice MSCI América Latina subiu mais de 20% no mesmo período, alcançando seu melhor início de ano desde 1994.
Os investidores têm reconhecido os esforços de Milei em cortar gastos fiscais e controlar a inflação galopante da Argentina, mas esses avanços ainda não se refletiram em um aumento consistente dos lucros. Embora a economia tenha saído da recessão em 2024, o crescimento não se mostrou robusto o suficiente para sustentar um ciclo de resultados positivos, representando um desafio para ações que já são consideradas caras, segundo analistas.
“As ações precisam de evidências claras de uma segunda fase — crescimento econômico sustentado, recuperação de lucros e maior previsibilidade regulatória”, afirmou Carolina Volman, chefe de pesquisa de renda variável na corretora One618. “A bolsa ainda está aguardando um ciclo de crescimento que possa garantir uma expansão mais duradoura dos múltiplos.”
Até mesmo o bilionário Stanley Druckenmiller, que elogiou Milei na CNBC no início do mandato, decidiu encerrar a posição de seu Duquesne Family Office em um dos principais ETFs de ações argentinas, realocando capital para o Brasil.
Os lucros corporativos enfrentaram dificuldades devido à volatilidade financeira na Argentina no ano passado, acentuada por preços de commodities em baixa. A turbulência pré-eleitoral levou os bancos a registrarem os piores resultados desde a pandemia, com instituições como Grupo Financiero Galicia e Banco Macro reportando prejuízos no terceiro trimestre. Simultaneamente, a taxa de inadimplência atingiu o maior nível em pelo menos 15 anos, em meio a uma forte retração do crédito.
Mesmo as empresas do setor energético, que deveriam se beneficiar do novo modelo de crescimento exportador defendido por Milei, apresentaram resultados mistos. A estatal YPF registrou um pequeno prejuízo no terceiro trimestre, enquanto a Pampa Energía viu seu lucro cair cerca de 50% nos primeiros nove meses de 2025.
O fraco desempenho dos resultados corporativos se estendeu ao quarto trimestre. O Banco Macro divulgou uma queda de 26% no lucro líquido em comparação ao ano anterior, muito abaixo das estimativas dos analistas. A produtora de petróleo e gás Vista Energy, um dos principais nomes na exploração da formação de Vaca Muerta, reportou uma redução de 8,6% no lucro trimestral, com ações caindo 3,5% na abertura do pregão.
Até as ações da MercadoLibre Inc., uma das maiores empresas abertas da América Latina, enfrentaram a maior queda intradiária desde 2024 na quarta-feira, após o lucro líquido do quarto trimestre ficar abaixo das expectativas dos analistas. As ações continuaram em queda na quinta-feira.
“O mercado teve um movimento muito agressivo após as eleições de meio de mandato, e as avaliações ficaram um pouco esticadas demais no final do ano passado”, comentou Ola El-Shawarby, gestora de portfólio de mercados emergentes na VanEck.
As companhias do índice Merval são negociadas a um múltiplo preço/lucro (P/L) futuro de 19,8 vezes, acima das 13,4 vezes do Ibovespa no Brasil, 15,6 vezes do IPSA no Chile e 15,9 vezes do BMV no México, conforme dados da Bloomberg.
As empresas argentinas não estão “particularmente baratas”, disse Ezequiel Fernández, chefe de pesquisa corporativa na Balanz. “Validar esses valuations exige confiança de que os lucros vão crescer fortemente neste ano.”
O foco do mercado permanece nos resultados do quarto trimestre, que começaram a ser divulgados nesta semana, e nas perspectivas de crescimento econômico. Neste último ponto, o cenário não é promissor.
A economia deve crescer 2% em 2026, abaixo da previsão anterior de 3,2%, enquanto a Argentina inicia o ano com um “ritmo mais lento”, segundo a Bloomberg Economics. Esse pessimismo persistiu, mesmo após uma leve recuperação em dezembro.
“Dados recentes levantaram dúvidas sobre as perspectivas da Argentina para 2026. Agora esperamos que a economia cresça 2% neste ano, abaixo da estimativa anterior de 3,2%. Isso provavelmente limitará o potencial de alta das ações, mas pode não impactar tanto os títulos. Em nossa visão, o principal risco de mercado é se a desaceleração afetar o ambiente político ou desviar a agenda de políticas do governo”, afirmou Jimena Zuniga, analista de geoeconomia da América Latina.
Para mitigar o crescimento fraco, o governo está propondo incentivos fiscais para atrair investimentos estrangeiros e legislações que incentivem argentinos a trazer recursos não declarados para a economia formal. Além disso, o governo está próximo de garantir a aprovação no Congresso do projeto de reforma trabalhista emblemático de Milei, que flexibilizaria as regras de contratação e demissão.
Entretanto, fatores específicos do mercado também pressionam as ações argentinas.
Os mercados emergentes atraíram mais de US$ 50 bilhões em fluxos positivos no acumulado do ano, o período mais forte em anos, segundo El-Shawarby, da VanEck. Grande parte desse capital foi direcionada a ETFs que replicam índices de referência, favorecendo mercados maiores e mais líquidos como Brasil e México.
O mercado acionário argentino continua pequeno em comparação aos pares regionais e relativamente ilíquido, limitando sua capacidade de absorver grandes alocações passivas. Sua exclusão dos principais índices globais reforça essa restrição.
Um possível gatilho seria uma reclassificação pela MSCI, o que exigiria, a longo prazo, a remoção dos controles de capitais e maior acesso para investidores estrangeiros.
Os fluxos líquidos para o ETF MSCI Argentina somaram cerca de US$ 630 milhões em 2024, o maior volume anual em mais de uma década, à medida que os esforços de estabilização de Milei impulsionaram um rali concentrado no início do ciclo. No entanto, o ímpeto se mostrou difícil de manter. Aproximadamente US$ 200 milhões foram retirados do fundo em 2025, e
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