'Achei que ia morrer': britânica adverte sobre canetas emagrecedoras vendidas pela internet
Britânica alerta sobre riscos de canetas emagrecedoras vendidas online
Emma Dyer recorda claramente o instante em que clicou em "comprar agora" em um anúncio de canetas emagrecedoras na internet. Sem passar por qualquer consulta médica ou verificação de identidade, ela não teve que responder a perguntas sobre seu histórico de anorexia e bulimia.
"Foi muito fácil", afirma. "Eles nunca perguntaram sobre meu histórico médico ou quais medicamentos eu estava tomando. Foi como fazer uma compra comum."
Poucos dias após iniciar as injeções, Emma desmaiou no banheiro e acreditou que estava à beira da morte.
Com um passado de transtornos alimentares, ela havia alcançado um peso saudável e se sentia estável em seu emprego. No entanto, um comentário de uma colega, dizendo que ela "ficava melhor mais magra", a levou a uma espiral negativa.
"Uma noite, cheguei em casa e tive um impulso", recorda. "Pesquisei 'injeções para emagrecer'. Queria perder peso rapidamente, acreditando que a magreza me traria aceitação — tanto dos outros quanto de mim mesma."
Emma desembolsou £ 115 (cerca de R$ 800) por injeções que acreditava serem de Saxenda, um medicamento à base de liraglutida, que pode resultar na perda de até 8% do peso corporal.
A residente de Carlton, em Nottinghamshire, contou que o site não oferecia garantias e apenas solicitava seu índice de massa corporal (IMC), que ela poderia manipular.
"Se tivessem verificado meu histórico médico com meu médico, provavelmente não teria conseguido comprar", diz. "Meu IMC era normal, mas não estava em condições de tomar uma decisão racional."
Quando as injeções chegaram, em março de 2024, Emma notou que as instruções estavam "mal impressas". Sem saber que deveria começar com uma dose baixa, ela injetou uma dose média.
"No primeiro dia, não tive apetite. Pensei: 'Isso é ótimo'. Mas no segundo dia, tudo mudou", relata. Ela desmaiou novamente no banheiro.
"Não conseguia me mover, falar ou abrir os olhos", conta. "Tive alucinações e vomitei tanto que cheguei a expelir sangue. Pensei: 'É assim que vou morrer'."
Envergonhada e assustada, decidiu não contar a ninguém. "Se alguém soubesse, diria: 'Emma, você não precisa disso'. Mas na minha mente, eu não achava que estava bem. Enfrentei tudo sozinha."
Agora, ela compartilha sua história na esperança de alertar outros sobre os perigos de encomendar canetas emagrecedoras online.
Dados recentes da University College London indicam que aproximadamente 1,6 milhão de adultos no Reino Unido usaram injeções para emagrecer no último ano.
Alguns obtêm medicamentos como Ozempic e Mounjaro pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), mas a maioria os compra de forma particular.
Esses medicamentos atuam como supressores de apetite, imitando um hormônio chamado GLP-1, que proporciona sensação de saciedade.
Apesar de sua eficácia, especialistas alertam sobre o risco de ganho de peso após a interrupção do uso.
Claire Fuller, diretora médica do NHS na Inglaterra, expressou preocupação com relatos de vendedores não verificados e a promoção de injeções sem supervisão clínica adequada.
"A falta de supervisão pode comprometer a saúde dos pacientes, e há preocupações sobre a qualidade dos produtos", afirma. "Esses medicamentos são potentes e podem ter efeitos colaterais graves, devendo ser prescritos apenas por profissionais de saúde qualificados."
O NHS enfatiza que o acesso a esses medicamentos deve ser acompanhado de "apoio comportamental e cuidados abrangentes".
No Reino Unido, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde publicou orientações sobre como obter injeções para perda de peso de forma segura.
No Brasil, a venda dessas canetas é permitida apenas com receita médica, mas o comércio online, muitas vezes ilegal, tem gerado preocupações entre as autoridades de saúde.
Daniel Magson, CEO da First Steps ED, uma instituição de caridade que atende pessoas com transtornos alimentares, observa um aumento alarmante no acesso a injeções para emagrecimento.
"Estamos vendo um número crescente de pessoas que buscam essas injeções — algumas em farmácias, outras online e até em salões de beleza", diz. "E muitas não recebem o suporte adequado."
Ele relata um padrão preocupante:
- Pessoas passando mal após resistirem à alimentação.
- Hospitalizações devido a problemas cardíacos.
- Aumento da depressão associada à restrição alimentar.
- Recaídas entre indivíduos que se recuperaram de transtornos alimentares.
O número de encaminhamentos para a instituição cresceu de 852 para 1.339 em um ano, representando um aumento de 57%.
"Estamos treinando nossa equipe não só sobre injeções, mas também sobre como a mudança nos ideais corporais está reativando problemas em pessoas que se recuperaram há décadas", alerta.
A farmacêutica Grace Pickering, da Well Pharmacy, também reconhece que a situação de Emma não é única.
"Temos visto casos preocupantes de pessoas apresentando produtos que não vieram de profissionais médicos", diz. "Comprar de fontes não confiáveis pode resultar em medicamentos adulterados."
Ela acredita que todos os fornecedores deveriam seguir padrões rigorosos, incluindo consultas presenciais antes da prescrição e acompanhamento regular.
Emma concorda, ressaltando a necessidade de regulamentações mais estritas. "Deveriam exigir comprovações, verificar o IMC e conhecer os medicamentos que a pessoa toma", sugere.
"É fundamental ter apoio contínuo antes, durante e depois do tratamento", conclui.
Emma espera que compartilhar sua experiência faça com que outros repensem suas decisões. "Foi o maior erro da minha vida", desabafa. "Recaí no meu transtorno alimentar e quase morri. Não desejo isso a ninguém."
← Voltar para as notícias