A vida das 'babás de milionários': 'Tive de arrumar mala do dia para a noite para buscar uma Ferrari na França'
A vida das 'babás de milionários'
Crédito, Reprodução/Instagram/@gbpassarelli_
Autor: Rute Pina, da BBC News Brasil em São Paulo
Data: 24 de fevereiro de 2026, 05:40 -03, Atualizado há 5 horas
"Sabe aquele ditado que diz que todos têm as mesmas 24 horas? É mentira", afirma Giuliana Passarelli, de 31 anos, assistente pessoal de um milionário. "Ele [seu chefe] também tem as minhas 24 horas."
Giuliana se dedica a lidar com tudo o que o empresário de 35 anos prefere não fazer, desde escolher um terno de 5 mil euros até organizar festas de aniversário e comprar material escolar para o filho.
Sua rotina é marcada por extravagâncias. Em uma ocasião, foi chamada às pressas para ir à França buscar uma Ferrari. "Tive que arrumar a mala do dia para a noite, porque ele comprou uma edição especial, de colecionador. Chegamos, fomos a uma cidade vizinha a Paris e eu cuidei de toda a parte burocrática para trazer o carro ao Brasil", relembra.
O trabalho de Giuliana é extremamente dinâmico. Um dia pode envolver levar o cachorro do patrão ao veterinário e no outro, marcar consultas médicas. Ela também é responsável por gerenciar os boletos do seu chefe.
"Já pensou em estar no seu dia mais agitado e esquecer de comprar pasta de dente? Isso nunca acontece com ele, porque eu cuido de tudo", explica.
Nas redes sociais, ela se autodenomina "babá de milionário", um termo que viralizou a partir de uma piada interna. "Brincava sobre isso, pois temos uma relação de amizade muito próxima", diz.
Giuliana garante que seu chefe pode "desligar o modo avião da cabeça" enquanto ela assume a responsabilidade por tudo. "Cuidar de uma pessoa é como estar atenta a uma criança de dois anos: não se pode piscar."
Formada em Publicidade e pós-graduada em Marketing, ela trocou a rotina de agências pela gestão da vida do empresário. A oportunidade surgiu durante a pandemia, quando uma conhecida a indicou para o cargo. Após uma entrevista de apenas cinco minutos, foi contratada e já está com o empresário há cinco anos.
"Não ter uma rotina fixa não é um problema para mim, pois nunca fui apegada a horários. Gosto de cada dia ser diferente e de aprender coisas novas", comenta.
A assistente também menciona situações excêntricas, como quando seu chefe decidiu criar minigalinhas após ler uma matéria sobre milionários que adoram esses animais. "Ele apareceu no escritório com duas, e eu virei, literalmente, babá de minigalinhas", conta.
As aves, que custaram R$ 3 mil cada, agora vivem no sítio de uma funcionária do patrão, mas Giuliana continua a receber atualizações para repassar ao chefe.
Para não abandonar sua formação, ela começou a produzir conteúdo nas redes sociais. Seu TikTok já acumulou mais de 5 milhões de curtidas e 140 mil seguidores, onde compartilha os bastidores de sua vida profissional.
A profissão de assistente pessoal não é nova, segundo Cristina Proença, professora da ESPM que coordena a pós-graduação em Negócios e Marketing de Luxo. Ela observa que essa função é uma evolução de cargos tradicionais como governantas e mordomos.
A crescente concentração de riqueza tem impulsionado a demanda por serviços altamente especializados. Um levantamento da consultoria Bain & Company estima que o mercado de luxo no Brasil, que faturou R$ 74 bilhões em 2022, alcançará R$ 150 bilhões até 2030, especialmente entre famílias com patrimônios superiores a US$ 1 milhão.
No Brasil, existem cerca de 141,4 mil super-ricos, de acordo com dados do governo federal. A nova lei que isentou o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil caracterizou esse grupo como contribuintes de alta renda.
A personalização extrema se tornou essencial na experiência de luxo. Segundo Proença, um assistente pessoal deve conhecer tão bem seu cliente que pode criar experiências exclusivas. "O tempo é o bem mais valioso", afirma.
A professora critica o termo "babá de milionário", pois acredita que ele infantiliza profissionais que atuam como assistentes pessoais. "Parece que a pessoa não tem condições de desenvolver sozinha."
Para quem possui muito dinheiro, a terceirização de tarefas é uma questão de escolha, e não incapacidade. "É a mentalidade de ser servido, mas por opção", conclui.
Em Goiânia, João Victor Marques, de 29 anos, vive uma experiência semelhante. Ele trabalhou em Mônaco, Dubai, Londres e Zurique e atualmente é assessor pessoal de uma empresária conhecida como a "rainha dos motéis". "Cuido da vida dela, da casa e do marketing dos motéis", explica.
João Victor destaca que a confiança e a responsabilidade são essenciais no cargo. "Já fiz transações de R$ 200 mil sem restrições."
Ele se sente atraído pela oportunidade de acesso ao mundo dos super-ricos. "Sempre tive o básico, e agora vivo uma realidade diferente."
Giuliana, por sua vez, valoriza a liberdade que seu trabalho proporciona. "A qualidade de vida de poder morar onde quero e ter meus horários é imbatível."
Ela enfatiza que um assistente pessoal não está disponível 24 horas por dia. "Consigo resolver minhas coisas e ainda cuido da vida do meu chefe."
A convivência diária com a riqueza extrema gera sentimentos conflitantes. Giuliana admite que ver gastos exorbitantes em um país com tanta desigualdade pode ser chocante. "Às vezes, fico pensando: 'Por que tanta diferença?'."
Ela compartilha sua vida nas redes sociais como uma forma de entretenimento, sem a intenção de ensinar nada. "Meu objetivo é mostrar que isso existe. Esse é o mundo deles", afirma.
O setor de assistentes pessoais está se profissionalizando, com empresas como a Lu Xavier, que recruta funcionários para residências de alto padrão. O processo inclui verificações rigorosas, como antecedentes criminais e referências.
Luciana Xavier, fundadora da agência, notou uma lacuna na qualidade dos serviços oferecidos por agências tradicionais. "Percebi que muitos profissionais não estavam à altura das expectativas", comenta.
Para assistentes pessoais, ela observa que o conhecimento do mercado de luxo é fundamental. "Quem atua nesse setor deve saber como organizar um jantar ou acionar um florista", explica.
Apesar da popularização da profissão, Luciana ressalta que a discrição é essencial. "Muitas famílias exigem confidencialidade. O trabalho é mais sobre gestão e responsabilidade do que glamour."
A remuneração média varia de R$ 15 mil a R$ 30 mil, dependendo das atribuições. Giuliana, que trabalha com
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