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A vida das 'babás de milionários': 'Tive de arrumar mala do dia para a noite para buscar uma Ferrari na França'

A vida das assistentes pessoais de milionários

Giuliana Passarelli, de 31 anos, é uma paulistana que trabalha como assistente pessoal de um empresário de 35 anos. Para ela, a ideia de que todos têm as mesmas 24 horas é um mito. “Ele também tem as minhas 24 horas”, afirma.

Giuliana se dedica a resolver tudo o que seu chefe não quer fazer, desde escolher um terno de 5 mil euros até organizar festas e compras de material escolar para o filho dele. Sua rotina é marcada por situações inusitadas, como quando foi chamada para buscar uma Ferrari na França. “Tive que arrumar a mala do dia para a noite”, relembra.

Não há uma rotina fixa. Um dia, pode ser necessário levar o cachorro do patrão ao veterinário; no outro, cuidar de boletos. “Se ele esquecer de algo, eu não esqueço”, brinca.

Em suas redes sociais, Giuliana se define como uma "babá de milionário", um termo que surgiu de uma piada interna entre eles. “Temos uma relação de amizade muito próxima”, explica.

Para ela, seu patrão pode “ligar o modo avião da cabeça” enquanto ela cuida de tudo. “É como cuidar de uma criança de dois anos; tudo pode mudar a qualquer momento.”

Formada em Publicidade e com pós-graduação em Marketing, Giuliana trocou o trabalho em agências pela gestão da vida do empresário. A oportunidade surgiu durante a pandemia, e após cinco anos, ela valoriza a flexibilidade que a profissão oferece.

Além das tarefas diárias, há um lado excêntrico. Giuliana conta que seu chefe, atraído por uma moda de minigalinhas, decidiu comprar duas. “Eu virei, literalmente, babá de minigalinhas”, diz, referindo-se à raça serama.

Para não perder o contato com sua formação, ela também produz conteúdo para a internet, onde já conquistou mais de 5 milhões de curtidas no TikTok, compartilhando os bastidores de seu trabalho.

Cristina Proença, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), diz que essa função é uma evolução dos empregados domésticos tradicionais. Com a concentração de riqueza, a demanda por serviços ultraespecializados tem crescido. Um levantamento da Bain & Company projeta que o mercado de luxo no Brasil alcançará R$ 150 bilhões até 2030.

A professora argumenta que o tempo é o bem mais valioso para os super-ricos. “Contratar esse tipo de serviço é uma maneira de ganhar tempo”, explica.

João Victor Marques, de 29 anos, vive uma experiência similar. Após trabalhar em países como Mônaco e Dubai, ele agora é assessor pessoal de uma empresária conhecida. “Cuidar da vida dela é como ser uma extensão dela”, afirma.

Ele reconhece a responsabilidade exigida pela profissão, uma vez que lida com questões financeiras e segredos pessoais. Para João, a profissão é uma oportunidade de ascensão social, proporcionando acesso ao mundo dos super-ricos.

Giuliana valoriza a liberdade que sua função oferece. “Consigo resolver minhas coisas enquanto cuido da vida do meu chefe”, diz.

Entretanto, essa convivência diária com a riqueza extrema gera sentimentos conflitantes. “Ver gastos elevados em um país tão desigual é chocante”, reflete. Apesar de não julgar as escolhas de consumo do patrão, ela admite sentir a diferença.

Giuliana não tem a intenção de ensinar nada sobre sua profissão, apenas mostrar a realidade do trabalho que realiza.

Com o crescimento desse setor, empresas especializadas têm surgido para conectar super-ricos a assistentes pessoais. A agência Lu Xavier, por exemplo, realiza um processo seletivo rigoroso para garantir a qualidade dos profissionais.

Luciana Xavier, fundadora da agência, aponta que a discrição é fundamental na função. “Muitas casas exigem termos de confidencialidade”, observa.

A remuneração média para assistentes pessoais varia de R$ 15 mil a R$ 30 mil, dependendo das atribuições. Giuliana, com um contrato CLT, considera sua função como uma garantia de segurança financeira.

Embora a profissão ofereça acesso a experiências luxuosas, exige habilidades específicas, como organização e fluência em inglês. Profissionais do setor frequentemente vêm de áreas como hotelaria de luxo, onde a construção de uma rede de contatos é crucial.

Cristina Proença ressalta que o assistente deve ter repertório cultural e saber como se comunicar com um público exigente. O valor do profissional está em suas conexões, que podem abrir portas em um mundo exclusivo.


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