A tecnologia transforma processos; a cultura transforma resultados
Quando a tecnologia é utilizada como suporte, em vez de um atalho, ela favorece decisões mais eficazes. É fundamental explorar maneiras de fazer a inteligência artificial gerar valor real.
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e se tornou uma parte essencial da rotina empresarial no Brasil. No setor de logística, algoritmos que otimizam rotas, modelos que preveem demandas e sistemas que antecipam riscos operacionais estão cada vez mais integrados ao dia a dia. Segundo a consultoria IDC, a IA pode impactar a economia global em €17,9 trilhões até 2030, representando 3,5% do PIB mundial. Porém, a discussão deve ir além da tecnologia; a verdadeira transformação ocorre no comportamento humano.
Atualmente, o desafio não é apenas ter IA, mas garantir que ela produza valor real. O relatório Avanade Trendlines: AI Value Report 2025 revela que mais da metade das organizações brasileiras ainda está nas fases iniciais de implementação, apesar do aumento nos investimentos. Isso indica um cenário comum: tecnologia disponível, mas com impacto limitado, e colaboradores não preparados.
Na logística, a IA se revela uma aliada crucial quando integrada à operação. Modelos de previsão podem ajudar a minimizar desperdícios, análises avançadas apoiam decisões de capacidade e sistemas inteligentes melhoram a confiabilidade das informações. Contudo, esses benefícios só se concretizam quando as pessoas confiam nos dados, entendem como utilizá-los e se sentem parte do processo. A confiança na IA cresce com a familiaridade, o apoio organizacional e a clareza sobre seus benefícios. Assim, tecnologia e cultura não são elementos acessórios, mas sim pré-requisitos interconectados.
Outro aspecto a considerar é que a IA não substitui o julgamento humano. Ela amplia repertórios, reduz vieses operacionais e acelera análises, mas não toma decisões isoladamente. Quando usada como suporte, a tecnologia propicia decisões mais assertivas, melhora a confiança nos dados, diminui erros e riscos, e estabelece ciclos de melhoria contínua baseados em aprendizado e adaptação.
Ao alinhar habilidades humanas com a IA, é possível fomentar inovação em uma cultura organizacional digital. Dados da NewVantage Partners mostram que cerca de 92% das empresas globais investem em dados e inteligência artificial, mas apenas 41% afirmam ter realmente criado uma cultura orientada por dados. Essa disparidade evidencia uma diferença significativa entre investir e implementar uma capacitação cultural.
Resolver essa lacuna cultural requer escolhas claras. Envolver os colaboradores na elaboração das soluções, capacitar líderes para interpretar dados criticamente, usar a IA como apoio à decisão e medir o impacto humano são passos essenciais. A transformação digital não é um projeto tecnológico; é um projeto centrado nas pessoas.
O futuro das empresas, incluindo o setor de logística, será cada vez mais digital, automatizado e orientado por pessoas e dados. Entretanto, também exigirá responsabilidade e um senso coletivo. A próxima onda de competitividade não será definida apenas por quem adota a IA primeiro, mas por quem consegue integrá-la à sua cultura de resultados. Afinal, tecnologia sem pessoas não escala, e inovação sem cultura não se sustenta.
Isabel Menendez é diretora de Recursos Humanos da Loggi.
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