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A origem controversa do Banco Pleno
Liquidada pelo Banco Central nesta quarta-feira, a instituição recebeu autorização para operar apesar de suas conexões com o escândalo do Master.
Em julho de 2022, quando enfrentava a crise do Master, o Banco Central recebeu um pedido de Augusto Ferreira Lima, um dos fundadores do Master. Ele solicitou a criação de uma nova instituição – o Banco Pleno, que anteriormente se chamava Voiter e pertencia ao Master. Normalmente, o Banco Central leva pelo menos um ano para aprovar o funcionamento de um novo banco. No caso do Pleno, a autorização foi concedida em apenas 45 dias.
Como detalha uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí, a cronologia é intrigante. Naquele mesmo mês de julho, o Banco Central já havia descoberto uma série de fraudes no Master e havia tomado providências ao denunciar o caso ao Ministério Público. “Como isso é possível?” questiona um diretor de banco, perplexo. “O Banco Central autoriza o funcionamento do Pleno logo após denunciar um de seus proprietários?” Augusto Lima foi preso pela Polícia Federal em 18 de novembro durante a primeira fase da operação que investiga o Master. Hoje, ele está em liberdade, usando tornozeleira eletrônica, mas ainda é proprietário do Pleno, que foi liquidado pelo BC nesta quarta-feira (18).
O argumento do Banco Central para aprovar a nova instituição é controverso. O primeiro é que Augusto Lima possui um patrimônio de 1 bilhão de reais, que seria investido no Pleno. Esses recursos, portanto, poderiam retornar ao “perímetro do caso” se Lima fosse condenado pelas fraudes. O segundo argumento, ainda mais questionável, é que Lima cumpriu todos os requisitos do BC para abrir um banco, incluindo a “reputação ilibada”. “Como ele não foi condenado, não havia como negar a operação”, afirma um técnico do BC.
No entanto, esse raciocínio ignora o fato de que, mesmo sem condenação, o Banco Central já havia levantado evidências das irregularidades de Lima. Antes de conceder a autorização em tempo recorde, o BC questionou Lima sobre seu interesse em um negócio tão arriscado, revelando suas próprias desconfianças. A pergunta deveria ser inversa: por que o BC autorizaria uma pessoa com negócios suspeitos a entrar no mercado?
Augusto Ferreira Lima está na origem do Master. Em 2019, ele se associou a Daniel Vorcaro e introduziu o Credcesta – um cartão de crédito consignado voltado para servidores públicos e aposentados. A ideia surgiu na Bahia, em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil, que tentava privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo. O estado havia realizado dois leilões sem sucesso.
Augusto Lima, que ainda não operava no mercado financeiro, reuniu-se com Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia e hoje líder do governo no Senado. Ele convenceu Wagner a tornar o leilão mais atrativo, propondo que o comprador da Ebal pudesse oferecer um cartão de crédito consignado aos 400 mil servidores, pensionistas e aposentados do estado. O servidor poderia comprometer até 40% de sua renda com empréstimos consignados.
A proposta resultou em sucesso. No terceiro leilão, a Ebal foi vendida por 15 milhões de reais, e o comprador foi Augusto Lima. O cartão de crédito, por si só, era bastante vantajoso, cobrando mais de 5% de juros ao mês, operando sem risco de calote devido ao caráter consignado e garantindo uma clientela sólida. Após dezesseis dias, Rui Costa concedeu um novo benefício a Lima: o Credcesta seria o único a operar naquele mercado por 15 anos.
A exclusividade fez do Credcesta um ativo ainda mais valioso. Para operá-lo, Lima precisava de um banco. Ele se dirigiu ao BMG, que recusou sua proposta. Por sugestão de um investidor, Lima procurou o Master, que aceitou a proposta. Por 25 milhões de reais, Daniel Vorcaro adquiriu 50% do Credcesta, que se tornou um ativo extremamente lucrativo para o banco.
Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras).
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