Augusto Ferreira Lima

A origem controversa do Banco Pleno

Liquidado pelo Banco Central nesta quarta-feira, a instituição obteve autorização para operar, mesmo com seus vínculos ao escândalo do Master.

Em julho do ano passado, enquanto enfrentava a crise do Master, o Banco Central recebeu um pedido de Augusto Ferreira Lima, um dos fundadores da instituição. Ele solicitou a criação do Banco Pleno (anteriormente chamado Voiter e parte do Master). Normalmente, o processo de aprovação leva pelo menos um ano, mas no caso do Pleno, a autorização foi concedida em apenas 45 dias.

Uma reportagem da piauí destaca a estranheza dessa cronologia, uma vez que, no mesmo mês de julho, o Banco Central já havia descoberto diversas fraudes relacionadas ao Master e feito uma denúncia ao Ministério Público para que uma investigação fosse iniciada. Um diretor de banco expressou sua perplexidade: “Como é possível que o Banco Central autorize o funcionamento do Pleno logo após denunciar um de seus proprietários ao Ministério Público?” Augusto Lima foi preso em 18 de novembro, durante a primeira fase da operação que investiga o Master, e atualmente está em liberdade com tornozeleira eletrônica, mas continua sendo dono do Pleno, que foi liquidado pelo BC.

A justificativa do Banco Central para a aprovação do novo banco é polêmica. A primeira afirma ser que Augusto Lima possui um patrimônio de 1 bilhão de reais, que seria investido no Pleno. Esse montante poderia retornar ao "perímetro do caso" caso Lima fosse condenado. O segundo argumento, ainda mais questionável, é que ele teria cumprido todos os requisitos do BC, incluindo a “reputação ilibada”. Um técnico do BC afirmou: “Como ele ainda não foi condenado, não havia base para negar a operação”.

Esse raciocínio ignora o fato de que, mesmo sem uma condenação formal, o Banco Central já possuía evidências das irregularidades de Lima. Para complicar, antes de conceder a autorização, o BC questionou Lima sobre sua motivação para se envolver em um empreendimento tão arriscado. É pertinente questionar por que o Banco Central autorizaria alguém com um histórico de negócios suspeitos a entrar no mercado.

Augusto Ferreira Lima é uma figura central na história do Master. Em 2019, ao se associar a Daniel Vorcaro, ele trouxe para o banco o Credcesta – um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos e aposentados. A ideia surgiu na Bahia, em 2018, quando o governo de Rui Costa (PT) tentava privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que enfrentava prejuízos. Após dois leilões sem interessados, Lima se reuniu com Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico, e propôs uma cláusula que tornava o leilão mais atrativo, permitindo que o comprador operasse um cartão de crédito consignado.

A proposta foi bem-sucedida, e no terceiro leilão, a Ebal foi vendida por 15 milhões de reais a Augusto Lima. O Credcesta se tornou um negócio altamente lucrativo, cobrando juros superiores a 5% ao mês e garantindo uma clientela de 400 mil servidores. Quinze dias após a compra, Lima recebeu a exclusividade para operar o cartão por quinze anos, transformando o Credcesta em uma mina de ouro.

Para operar o cartão, Lima precisava de um banco. Após a recusa do BMG, ele se dirigiu ao Master, que aceitou sua proposta. Por 25 milhões de reais, Vorcaro adquiriu 50% do Credcesta, que se tornou um ativo extremamente rentável para o banco.

Repórter da piauí, também é autora de *O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder* (Companhia das Letras).


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