A impressão que fica é que o BC está despreparado para analisar bancos, diz Marcos Lisboa
Vorcaro critica atuação do Banco Central: ‘Prejudicou não só a mim, mas o sistema financeiro’
O banqueiro expressou à Polícia Federal sua indignação com a forma como o Banco Central lidou com a liquidação do Master.
De acordo com o economista Marcos Lisboa, a onda de fraudes que afeta os brasileiros e a falência de instituições financeiras menores nos últimos anos são, em grande parte, consequência de uma regulação ineficaz do sistema bancário. “A regulação frouxa permitiu ao crime se espalhar”, afirma o sócio-diretor da Gibraltar Consulting.
Lisboa destaca que o número de instituições financeiras, meios de pagamento e bancos que faliram nos últimos anos é alarmante. “Houve um problema de regulação que possibilitou essa quantidade impressionante de fraudes no sistema financeiro, especialmente em instituições menores.”
Ele argumenta que a situação não é nova, mas se agravou com as recentes mudanças que facilitaram a criação de instituições de pagamento e bancos digitais. Cita exemplos de instituições que enfrentaram problemas de liquidez ou foram liquidadas ao longo de 20 anos, como Banco Santos, Cruzeiro do Sul e Chaim.
No último ano, menciona as oito instituições ligadas ao Master e os crimes associados ao PCC, Reag, BRK Financeira, entre outros. Também traz à tona dados que mostram um aumento de 408% nos crimes virtuais desde 2018, além de golpes envolvendo Pix e cartões de crédito. “Vamos reconhecer que temos um problema com a regulação bancária?”, questiona.
Para o economista, a ideia de que o afrouxamento das regras traz mais concorrência e inclusão bancária não se sustenta. “Gostaria de ver dados que comprovem essa inclusão financeira. O Brasil já é um país altamente bancarizado há muito tempo”, afirma. Ele se pergunta quantas investigações da Polícia Federal sobre instituições financeiras e sonegadores vieram à tona nos últimos anos.
Lisboa observa que houve pressão significativa para relaxar as regras, o que permitiu a difusão de instituições de pagamento no Brasil, sem que o Banco Central tivesse a capacidade de fiscalizá-las adequadamente.
Ele destaca que, mesmo se o Banco Central dobrasse sua estrutura, ainda não teria condições de acompanhar o crescimento desenfreado dessas novas instituições. “A legislação permissiva permite a existência de bancos pequenos sem exigências de capital adequadas.”
Para abrir um banco, o interessado deve comprometer seu próprio capital. “Se você quer ser banqueiro, precisa investir seu patrimônio no banco”, afirma. O Banco Master, segundo ele, não seguia essa lógica, utilizando recursos do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
Lisboa, que foi conselheiro do FGC até 2016, votou contra o aumento do valor de garantia aos correntistas, que passou de R$ 70 mil para R$ 250 mil por CPF em 2013. “É necessário reduzir a garantia do FGC”, argumenta. “Porque a conta do Banco Master e das outras instituições que faliram será paga por todos nós.”
Ele também critica o Banco Central por estar vulnerável à opinião pública. “O corpo técnico é excelente, mas fica a dúvida sobre por que a diretoria demorou tanto para agir em um caso de insolvência já bem conhecido”, diz.
Lisboa observa que o Banco Central tem duas funções distintas: a política monetária e a supervisão do sistema financeiro.
“Essa mistura de funções é problemática”, afirma. “Uma delas é assegurar que os juros estejam adequados para controlar a inflação, enquanto a outra é analisar bancos, avaliar balanços e riscos, além de conhecer problemas de controle de fraudes. Quem lidera essa área possui o conhecimento necessário?”
A impressão que Lisboa deixa é a de que o Banco Central está despreparado nessa esfera.
Quanto a possíveis lições a serem aprendidas com a crise causada pelo caso Master, ele se mostra cético. “Após o Mensalão e o Petrolão, o que realmente aprendemos com aquelas fraudes?”, questiona. “A impunidade no Brasil persiste.”
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