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A Era do ‘G0’ e a nova ordem global: Eurasia alerta para mudanças em investimentos

A Era do ‘G0’ e a Nova Ordem Global

24/02/2026 19h27

Atualizado 57 minutos atrás

O cenário mundial passa por uma transformação significativa, saindo de um regime unipolar dominado pelos Estados Unidos e entrando em uma fase que especialistas chamam de “G0”. Esta nova era se caracteriza pela falta de governança global e pela predominância dos interesses internos em detrimento da cooperação internacional.

Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia Group, descreve essa situação: “Não é G2, não é G7. Os países estão se voltando mais para seus próprios interesses”, destacando o enfraquecimento das alianças tradicionais e a desigualdade na redistribuição de riscos entre continentes e setores.

Garman aponta que essa mudança impacta profundamente a forma como governos, empresas e investidores se posicionam globalmente. A erosão das estruturas multilaterais tradicionais não só aumenta as incertezas como também redistribui riscos de maneira desigual entre diversas regiões e setores da economia.

O executivo participou do Outliers InfoMoney, onde dialogou com Clara Sodré e Fabiano Cintra.

A Disputa EUA-China e a Interdependência Ambígua

A rivalidade entre Estados Unidos e China é vista como o motor dessa nova ordem internacional. Garman afirma: “A disputa é tecnológica, militar e financeira. No entanto, as economias estão tão interligadas que se atacam e se sustentam ao mesmo tempo”, ressaltando a complexidade dessa relação.

Essa interdependência cria um ambiente ambíguo, onde ambos os países adotam medidas defensivas, mas continuam dependentes dos fluxos comerciais e tecnológicos.

A busca por autonomia nas cadeias produtivas se torna uma prioridade estratégica, destacando os semicondutores como ativos geopolíticos essenciais.

Taiwan e o Peso Geopolítico dos Chips

Garman enfatiza a crescente relevância dos chips fabricados em Taiwan, peças fundamentais nas cadeias globais de tecnologia avançada. A dependência global da ilha torna-a um foco de tensões geopolíticas.

Embora a probabilidade de uma invasão chinesa em 2026 seja estimada em apenas 5%, o especialista alerta que essa chance tende a aumentar nos próximos cinco anos. Ele observa que esse risco já é considerado pelo mercado, mas sua importância deve crescer à medida que a rivalidade entre as potências avança.

Geopolítica: Fator Central nos Negócios

A geopolítica deixou de ser um aspecto secundário, agora influenciando o mercado financeiro com a mesma intensidade que indicadores econômicos, como inflação e juros. Garman afirma: “Estamos entrando em um ciclo onde a estabilidade geopolítica está em xeque. É um ponto de inflexão que começa a impactar os negócios”.

CEOs de multinacionais já citam fatores geopolíticos entre suas principais preocupações, sinalizando uma mudança estrutural em que o risco político é um componente central nas decisões estratégicas.

Mudanças Regionais e Erosão Institucional

Além da Ásia, Garman destaca o papel disruptivo da Rússia e as transformações na Europa e América do Norte. A perda de confiança nos sistemas políticos e judiciais desses países favorece lideranças focadas em agendas internas, reduzindo a cooperação internacional.

Esse ambiente fragmentado reforça o movimento de cada nação em direção a seus próprios interesses, intensificando o que Garman denomina “egoísmo estratégico”.

Estados Unidos: Credibilidade em Questão

Analisando os Estados Unidos, Garman reconhece a força econômica do país, mas aponta um desgaste em sua credibilidade como parceiro estratégico. “Há uma quebra dramática de confiança na relação transatlântica. O ruído político deve enfraquecer o dólar ao longo do ano”, avalia.

Ele prevê que, diante de turbulências internas, um eventual governo Trump poderá adotar uma política externa mais agressiva. “Não será um Trump moderado. Ele vai intensificar suas ações externas”, menciona, referindo-se a pressões sobre a Venezuela e interesses estratégicos na Groenlândia.

China: Autonomia e Redesenho Econômico

Sobre a China, Garman afirma que o país não busca substituir os EUA como potência global, mas sim diminuir sua dependência econômica e financeira de Washington. “O principal objetivo da China é aumentar a autonomia nas cadeias produtivas e fortalecer sua presença internacional”, explica.

Ele prevê um período de “detente” nas relações bilaterais pelos próximos dois anos, mas alerta que, nos cinco anos seguintes, os EUA devem intensificar restrições ao capital chinês e ao acesso de empresas chinesas a setores estratégicos.

Tecnologia: O Novo Tabuleiro do Poder Global

A corrida tecnológica é vista por Garman como o aspecto mais decisivo dessa disputa. A China foca em inteligência artificial industrial e produção de chips, enquanto os Estados Unidos priorizam IA generalista e tecnologias para o consumidor. “Cada um tem objetivos distintos, mas a competição é intensa e global”, conclui.

Para o mercado financeiro, isso gera efeitos imediatos: qualquer conflito – comercial, tecnológico ou militar – impacta preços de ativos, moedas, commodities e expectativas de crescimento. “A década passada já demonstrou sinais claros desse novo padrão”, finaliza.


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