A dignidade que o terror do Hamas tenta apagar
A Dignidade em Face do Terror
Extremistas utilizam sequestros, ocultação e destruição de corpos como uma tática de guerra psicológica.
22/02/2026 00h04 Atualizado há 3 dias
O texto analisa a estratégia do Hamas de empregar sequestros e destruição de corpos como forma de guerra psicológica, contrastando com o comprometimento de Israel em restituir identidade e dignidade aos falecidos. O caso de Ran Gvili, cujo corpo ficou retido por mais de dois anos, é destacado como um símbolo do sofrimento prolongado causado pelo terrorismo. A narrativa critica a relativização da violência e a despersonalização histórica, defendendo que honrar os mortos é uma forma de proteger a dignidade humana.
Na tradição judaica, o respeito pelos mortos é um valor cultural e um mandamento moral. A identidade de uma pessoa não desaparece com a morte; seu nome, história e dignidade permanecem. Nenhuma vida deve ser reduzida a um número, estatística ou dano colateral.
Esse princípio, frequentemente negligenciado no debate público, emergiu recentemente de maneira impactante. Para identificar o último refém encontrado em Gaza, forças israelenses realizaram aproximadamente 250 autópsias no local. Esse processo técnico e doloroso reflete uma escolha ética clara: não permitir que as vítimas desapareçam no anonimato imposto pelo terror.
Enquanto grupos extremistas investem no sequestro e na destruição de corpos como estratégia psicológica, Israel demonstra determinação em restituir identidade, nome e sepultura a cada pessoa assassinada. Há uma linha moral clara: de um lado, a instrumentalização da morte; do outro, o compromisso de honrar a vida, mesmo quando já foi interrompida.
Ran Gvili foi assassinado no dia 7 de outubro de 2023 e seu corpo permaneceu retido por dois anos, três meses e 21 dias, retornando à sua família em 26 de janeiro deste ano. Essa situação cruel exemplifica como o terrorismo não se limita a matar, mas busca prolongar o sofrimento, transformando cadáveres em moeda política e negando o direito ao luto.
Diante disso, surge uma pergunta desconfortável: até quando o mundo continuará a tratar o terror como algo explicável ou relativizável?
Não há justificativa para o sequestro de civis. Nenhum contexto absolve a violação de inocentes. A relativização da violência atual é sempre filha do apagamento da violência passada. Quando crimes são justificados e vítimas perdem seus rostos, a História não alerta mais — ela se repete.
Com o tempo, o Holocausto passou a ser mencionado de forma cada vez mais abstrata, diluído em expressões genéricas como “milhões de pessoas”, como se tivesse sido uma tragédia sem alvo definido. Essa despersonalização não é inocente; ela apaga o fato central de que 6 milhões de judeus foram assassinados por serem judeus.
Reduzir um genocídio com ideologia clara e objetivos explícitos de extermínio a um evento vago enfraquece a verdade histórica, confunde a memória coletiva e banaliza um dos maiores crimes da Humanidade. É nesse terreno que o antissemitismo se reconfigura, através de omissões estratégicas, falsas equivalências e narrativas que diluem responsabilidades.
Não há encerramento possível para esse capítulo da História. Não existe “página virada”. O que persiste é uma ferida aberta que continua a questionar governos, parlamentos, instituições e consciências.
Honrar os mortos não é apenas um gesto de respeito ao passado. É uma defesa ativa da dignidade humana no presente — e um limite moral claro contra qualquer forma de terror, relativização da violência e apagamento da verdade.
Célia Parnes, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo.
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