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A chuva está chegando na Antártica e vai mudar a face do continente gelado

A chegada da chuva na Antártica e suas consequências

A precipitação na Antártica está se tornando mais frequente, alterando o cenário do continente gelado. A chuva derrete a neve e compromete a estrutura dos glaciares, resultando na liberação de icebergs e colocando em risco a sobrevivência dos pinguins.

Bethan Davies, professora de glaciologia na Universidade de Newcastle, compartilha suas observações sobre essa mudança climática significativa.

Tradicionalmente, a chuva é um fenômeno raro neste continente. Os pesquisadores, ao trabalharem na região, se preparam para o frio intenso e a luminosidade refletida pela neve, não para o clima chuvoso. No entanto, essa realidade está se transformando.

Na Península Antártica, localizada no extremo norte do continente, a chuva está se tornando mais comum. Essa área, a mais quente da Antártica, aquece mais rapidamente do que o restante do continente e em um ritmo superior à média global. Isso sinaliza o que pode acontecer na costa da Antártica, especialmente na vulnerável Antártica Ocidental, nas próximas décadas.

Recentemente, uma equipe de cientistas, liderada por Davies, analisou como a Península pode mudar durante este século sob três cenários de emissões de gases de efeito estufa: altas, médias e baixas. Os resultados indicam que, à medida que a península aquece, a precipitação tende a aumentar, com uma maior proporção caindo na forma de chuva. O aumento de dias com temperaturas acima de 0°C alterará drasticamente o ambiente local.

O impacto do clima extremo

O clima extremo já está provocando mudanças na região. Em fevereiro de 2020, uma onda de calor atingiu a península, registrando temperaturas de 18,6°C, quase sem precedentes na história da Antártica. Durante esse evento, a superfície de uma plataforma de gelo derreteu em um ritmo alarmante.

Os rios atmosféricos, canais de ar quente e úmido que se formam em latitudes mais quentes, estão se tornando cada vez mais influentes no clima antártico. Em fevereiro de 2022, um desses eventos resultou em um derretimento recorde, enquanto outro, em julho de 2023, trouxe chuvas e temperaturas de +2,7°C durante o inverno.

Consequências da chuva para neve e gelo

A chuva gera efeitos adversos na neve. Quando a precipitação ocorre, a neve derrete rapidamente, retirando dos glaciares sua fonte de gelo. Esse processo não só acelera o desprendimento de icebergs, como também aumenta a taxa de perda de massa glacial.

Nas plataformas de gelo flutuantes, a chuva compacta a neve, formando lagoas que absorvem mais calor do que a superfície branca da neve. Essa água derretida pode enfraquecer a estrutura do gelo, resultando em mais desprendimentos de icebergs. O impacto da chuva também se estende ao gelo marinho, reduzindo sua cobertura e acelerando seu derretimento, o que afeta o habitat de espécies como algas e krill, fundamentais para a cadeia alimentar local.

Impactos ecológicos e humanos

Um aumento na precipitação terá sérias consequências para a fauna local, como os pinguins. Adaptados a um ambiente polar seco, esses animais não estão preparados para a chuva. As penas de seus filhotes não são à prova d'água, o que pode resultar em hipotermia e mortalidade.

As mudanças climáticas também afetam pequenos organismos. A remoção da cobertura de neve prejudica as algas da neve, essenciais para os ecossistemas terrestres, e expõe o solo a oscilações de temperatura que podem ser prejudiciais aos organismos subterrâneos.

Os humanos também enfrentarão novos desafios em um ambiente mais chuvoso. O aumento do interesse geopolítico pode levar à construção de novas infraestruturas, mas a pesquisa científica na região, que foi projetada para um clima seco, pode sofrer com as chuvas. As instalações de pesquisa e os locais históricos estão em risco devido à deterioração acelerada causada pelo derretimento e pelas chuvas intensas.

Se o aquecimento global continuar a avançar, a Península Antártica poderá passar por transformações irreversíveis. Limitar o aquecimento a 1,5°C pode não impedir totalmente essas mudanças, mas pode desacelerar o impacto que a chuva está tendo sobre o continente gelado.


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