‘As empresas farmacêuticas preferem que as canetas sejam utilizadas indefinidamente, embora não sejam a solução para a obesidade’
King Post | Divulgador de Notícias · 12 de set. de 2026, 21:10
Em seu recém-lançado livro, o médico David A. Kessler, conhecido por sua atuação na resposta à covid-19 nos EUA, discute as causas e as soluções para a crise da obesidade
Ao longo de quase cinquenta anos de carreira na medicina, o pediatra americano David A. Kessler acumulou vasta experiência.
Formado em 1979 pela Universidade Harvard, sempre teve o desejo de atuar além das consultas médicas, colaborando com a criação de políticas de saúde pública.
Nos anos 90, fez história como comissário da Food and Drug Administration (FDA), onde atuou na regulação da indústria do tabaco e no combate ao uso de cigarros. Mais tarde, durante a pandemia de covid-19, foi designado pelo então presidente Joe Biden para ser o diretor científico do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, tendo a importante tarefa de facilitar o desenvolvimento de vacinas e outras iniciativas contra o coronavírus.
Após muitas décadas observando como as alterações nos hábitos alimentares e as inovações científicas afetaram a saúde das pessoas, o professor da Universidade da Califórnia (UFSC) conclui que precisamos reconsiderar nosso estilo de vida, pois medicamentos como Ozempic e Wegovy não são a solução definitiva para a obesidade, que é hoje uma das principais causas de doenças e mortes em todo o planeta.
Em meio ao crescimento das canetas para emagrecer, o médico lançou recentemente no Brasil o livro Dieta, Remédios & Dopamina: A nova ciência do peso saudável, publicado pela editora Objetiva.
Dieta, Remédios & Dopamina – A nova ciência do peso saudável, por David A. Kessler, traduzido por Cássio de Arantes Leite, Editora Objetiva, 430 páginas (Capa: Objetiva/Reprodução)
Os fármacos análogos de GLP-1 têm sido considerados um marco no tratamento da obesidade. Esses medicamentos são realmente capazes de resolver o problema da obesidade? Apesar de serem extremamente eficazes, não são uma solução mágica e não representam a cura definitiva para a obesidade. O modo como essas drogas atuam é retardando o esvaziamento gástrico, mantendo os alimentos no estômago por mais tempo. Isso gera uma sensação prolongada de saciedade e aproxima a pessoa do limite de náusea, o que diminui acentuadamente o apetite.
Dada a natureza crônica da obesidade, é preocupante um uso contínuo das canetas, que pode durar toda a vida? As farmacêuticas desejam que as pessoas façam uso contínuo desses tratamentos, mas isso não soa realista para mim. O período médio de uso é de seis a nove meses. Um dos grandes desafios é que, ao cessar o tratamento, o peso tende a retornar, a menos que a pessoa tenha utilizado esse tempo para aprender novas estratégias de vida para manter o peso a longo prazo.
Quais os motivos que fazem algumas pessoas não conseguirem emagrecer ou manter o novo peso, mesmo com a utilização dessas medicações? Cada organismo responde de maneira única. Aproximadamente 5% a 10% das pessoas não conseguem reduzir peso de forma significativa com tais medicamentos, e a ciência ainda não entendeu completamente as razões. Além disso, o sucesso no tratamento depende da capacidade de suportar a dose apropriada; se os efeitos colaterais forem severos, pode ser difícil continuar com o tratamento. Independentemente de optarmos por dieta, cirurgia ou medicamentos, o foco final deve ser o mesmo: diminuição do apetite para reduzir a ingestão calórica.
O que precisa ser alterado na sociedade para promover a adoção de hábitos saudáveis? Precisamos transformar a oferta de alimentos e a percepção social do que consumimos. Se conseguirmos reduzir a gordura visceral abdominal, poderemos adicionar de cinco a seis anos de vida de qualidade, além de prevenir doenças como problemas cardiovasculares e renais.